A Tecla.
O sol esquenta os espaços frios do cimento rústico do
quintal. A música em solo de guitarra frenética trepida os átomos que parece
nada sentir. Envergado sobre o teclado, Tony formula questões que nem ele mesmo
tem as respostas. É preciso que as formule, só dessa maneira poderei seguir em
frente, escreve ele. Não faz esquema, não traça esboço, e muito menos estudo.
Não tem também horário. Quando lhe dá na telha, digita o que lhe vêem a mente.
Digita esparsas palavras que nem sempre caem no lugar certo. Nem sempre dá a
frase o sentido correto do que pensa. Mas não se importa, vai escrevendo,
melhor dizendo, digitando a esmo.
Não tinha pressa, aliás, nunca teve. Portanto, não havia
desculpas para o ocorrido. Tanto é que ficou olhando com a cara de bobalhão ao
ver a tecla pular e rodar pelo chão da sala e ganhar os espaços do quintal de
cimento rústico, onde o sol batia forte. Não sabe como aconteceu. Digitava
conforme surgiam às palavras quando o dedo escorregou meio que de revestrés por
cima da tecla T. Ouviu um clique ao mesmo tempo em que o T pulou. Foi rápido,
nem teve tempo de girar o corpo, estender a mão e a tecla rolava para o
quintal.
Houve um quê de espanto no semblante do seu rosto. O
silêncio irrompeu depois do clique e da tecla bater no assoalho e rodar até o
quintal. Por que fora deixar a porta escancarada? Agora tinha que procurar a
dita cuja. Pensou em continuar digitando, mas a ponta do dedo não aceitava ser
espetado pelo o que poderia ser a mola que segurava à tecla. Esticou o dedo
para o vazio sem conseguir o intento. Sentiu uma pequena câimbra obrigando-o a desistir.
Contra gosto, vendo que perderia a inspiração, saiu
para o quintal à procura da tecla. Foi achá-la entre as patas dos dois felinos,
Syde e July que a disputavam com miados e patadas. Vendo Tony se aproximar para
tirar seu brinquedo, Syde com a tecla nos dentes, seguido pela July subiu no
murro e desapareceu pelo quintal do vizinho.
Tony soltou uma praga jurando matar os dois gatos. Tirou um cigarro do bolso, acendeu e sentou na escada vendo o sol caminhar pelo cimento rústico do quintal.
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