segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Contos surrealistas 16

A Tecla.

 

O sol esquenta os espaços frios do cimento rústico do quintal. A música em solo de guitarra frenética trepida os átomos que parece nada sentir. Envergado sobre o teclado, Tony formula questões que nem ele mesmo tem as respostas. É preciso que as formule, só dessa maneira poderei seguir em frente, escreve ele. Não faz esquema, não traça esboço, e muito menos estudo. Não tem também horário. Quando lhe dá na telha, digita o que lhe vêem a mente. Digita esparsas palavras que nem sempre caem no lugar certo. Nem sempre dá a frase o sentido correto do que pensa. Mas não se importa, vai escrevendo, melhor dizendo, digitando a esmo.

Não tinha pressa, aliás, nunca teve. Portanto, não havia desculpas para o ocorrido. Tanto é que ficou olhando com a cara de bobalhão ao ver a tecla pular e rodar pelo chão da sala e ganhar os espaços do quintal de cimento rústico, onde o sol batia forte. Não sabe como aconteceu. Digitava conforme surgiam às palavras quando o dedo escorregou meio que de revestrés por cima da tecla T. Ouviu um clique ao mesmo tempo em que o T pulou. Foi rápido, nem teve tempo de girar o corpo, estender a mão e a tecla rolava para o quintal.

Houve um quê de espanto no semblante do seu rosto. O silêncio irrompeu depois do clique e da tecla bater no assoalho e rodar até o quintal. Por que fora deixar a porta escancarada? Agora tinha que procurar a dita cuja. Pensou em continuar digitando, mas a ponta do dedo não aceitava ser espetado pelo o que poderia ser a mola que segurava à tecla. Esticou o dedo para o vazio sem conseguir o intento. Sentiu uma pequena câimbra obrigando-o a desistir.

Contra gosto, vendo que perderia a inspiração, saiu para o quintal à procura da tecla. Foi achá-la entre as patas dos dois felinos, Syde e July que a disputavam com miados e patadas. Vendo Tony se aproximar para tirar seu brinquedo, Syde com a tecla nos dentes, seguido pela July subiu no murro e desapareceu pelo quintal do vizinho.

Tony soltou uma praga jurando matar os dois gatos. Tirou um cigarro do bolso, acendeu e sentou na escada vendo o sol caminhar pelo cimento rústico do quintal.

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