sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Contos surrealistas 25

                                         Não era estrela, mas...

 

A borra estava lá. Bem no fundo. Manchando todo o espaço branco da xícara de porcelana com flores. Uma xícara cuja alça com linhas barrocas de uma delicadeza cujo cuidado fazia com que as pessoas levantassem o dedinho como se fosse parte do ritual. Aliás, isso é mais pose de seres que se pensam elegantes conhecedoras do chique luxo lixo da etiqueta. Mas ela estava ali, não para se dizer lixo luxo da etiqueta e, muito menos da grandeza das pessoas, pois esses itens não a interessavam. De grandeza a humanidade tinha apenas o tamanho, deturpado e variado e, coloque variedade nisso, pois há pessoas para todos os gostos do mais ínfimo aos mais bastardos preconceituosos. Ziléia olhava a borra, depois é claro, ter bebido o café na mais demonstração de luxo lixo da etiqueta que, para ela, nada significava. O café até que estava bom, nem muito quente e nem muito doce, um pouco amargo para o gosto dela. Tudo bem, disse mentalmente, não vim aqui para apreciar o café e, sim ver, ou melhor, ouvir a Madame. Madame Riqueta, dizia a fama, era sagaz leitora em borra de café. Suas previsões dificilmente contrariavam a clientela. Sabia-se de pessoas cultas, inteligentes, artistas, médicos, políticos que frequentavam sua mesa de mistérios que só ela conhecia. Por isso, Ziléia estava ali vendo a borra no fundo da xícara de porcelana com alça barroca e flores angelicais. Ouvia as previsões e olhava a borra que Madame Riqueta fazia questão de mostrar a ela que nada entendia. Mas ouvia, precisava ouvir, tinha que ouvir, e queria ouvir se o seu destino algum dia mudaria. - Claro que sim. Veja aquele filete grosso. E Madame Riqueta mostrava para reforçar o que dizia, para provar que era verdade, como se Ziléia fosse compreender todo o palavreado envolvente da vidente. - A linha da tua vida será mudada assim que você sair daqui, ao pisar a calçada será outra pessoa, conhecerá novos e desconhecidos caminhos que nunca pensou em caminhar. Ziléia sentiu-se nova pessoa ao pisar a calçada como Madame Riqueta previra. Parecia que o ar era outro, mais puro, suave e delicioso. A partir de hoje serei mais confiante, não deixarei nada me atrapalhar mais, disse ao atravessar a rua. Nisso ouviu-se uma freada, pneus cantando no asfalto e uma bolsa lançada longe. - Moça, cuidado! Ta com o pensamento onde? Ziléia sentiu-se puxada violentamente ao mesmo tempo se viu nos braços de um rapaz de olhos verdes que a olhava com carinho e cuidado. Ela não era uma estrela, mas sua hora tinha chegado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...