Eu sei
Eu sei, mas não custa tentar, não é? Disse para ela. Todos os anos era a mesma
coisa. Procurava numa tentativa fraca se livrar dos infindáveis parabéns. Não
se sentia confortável ao ser abraçado, tocado, aperto de mão, ouvir felicitação
etc. e mais. Acanhado se encolhia como o caramujo dentro da frágil casca.
Tempos atrás, havia o famigerado café da manhã, onde entre comes e bebes e
bolos, na última sexta-feira de cada mês, após a cantoria de parabéns aos
aniversariantes, perdendo umas três ou quatros horas em beber e comer. Com o
advento da crise, ocasionado por um palhaço que teve a ousadia de fraudar o
resultado da eleição, deixando o abacaxi para ser descascado por um descendente
afro-americano, com raiz muçulmana e, como tudo o que acontece lá que, até um
peido seu cheiro se espalha pelos quatro cantos do mundo, aqui não foi
diferente, a crise se fez sentir e, assim, o café da manhã, a alegria dos que
vivem para comer, foi extinto.
Sabe que não poderá fugir dessa sina. Terá que enfrentá-la como enfrentou todos
esses trinta anos. Aceitando os parabéns e felicitações numa boa como um dia
qualquer, como um dia simples, sem os exageros característicos do momento.
Pouco se lhe apraz se o cumprimentam ou não. Não ficará chateado ou
deprimido se não se lembrarem do seu aniversário. O que importa é viver o que
transigente pulsa em seu interior levando-o a luta, levando-o a regozijar com a
manhã de sol, com a alegria do sorrir inocente de uma criança, com o nascer de
uma vida...
O cumprimentar ou não é insignificante diante
da proeza dos que vivem no malabarismo da sobrevivência. O que importa é o
prazer de viver a intensidade da vida no seu corriqueiro dia-a-dia.
Todos os dias ele agradece ao abrir os olhos ao ser cumprimentado pela luz da vida, esse é a maior e a melhor das felicitações a qual com humildade agradece.
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