Sentia a suave
Sentia a suave aspereza do carpete na sola dos pés. Descalçara os sapatos
porque não tinha outra coisa a fazer. Olhando a tela do monitor nada lhe vinha
à mente. Uma avalanche de palavras tolhia-lhe a inspiração, isto porque, não se
decidia o que escrever. Cacete, mais uma vez escreverei sobre a falta de
inspiração? É! Acho que sim. Fazer o que! Disse para si mesmo. Foi então que
lembrou, estava apaixonado. É, estava apaixonado. Amava. E era amado? Achava
que sim. Esperava que sim. Tinha certeza... Não, não tinha porra de certeza
nenhuma. A única certeza era que se apaixonará perdidamente. E deveria escrever
sobre essa paixão? E por que não? Todo apaixonado gosta de escrever ridículos
textos. Isso quando não escrevem cartas ridículas. Não com ele. Não tinha que
escrever cartas. Cartas ficaram no passado, ficaram numa época romântica, numa época
difícil de comunicação, rezando sempre para que a carta chegasse ao
destinatário. Época que se angustiava dias após dias pela resposta. Isso quando
a resposta chegava. Era uma época românica?
Mas porque uma época
romântica? E hoje, não há romantismo? Se há é um romantismo diferente, mais
frio, mais eletrônico, mais esdrúxulo, mais aventureiro, sem se preocupar com o
ser humano, mas com o prazer descartável, do substituível a cada segundo, pouco
se lixando com a pessoa, com o individuo. Quanto mais descartável, melhor.
Quanto mais substituível melhor. Quanto mais sexo melhor. Antes os românticos
morriam de tuberculose hoje, morre-se de AIDS sem ser romântico. Há um prazer
destrutivo quase ou totalmente proposital. Há um prazer de instantes, não há mais
o prazer único, de anos, de décadas, de mãos dadas além da vida.
E a suave aspereza do carpete ardia debaixo da sola dos seus pés.
Pastorelli
Nenhum comentário:
Postar um comentário