quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 340

 Sentia a suave


Sentia a suave aspereza do carpete na sola dos pés. Descalçara os sapatos porque não tinha outra coisa a fazer. Olhando a tela do monitor nada lhe vinha à mente. Uma avalanche de palavras tolhia-lhe a inspiração, isto porque, não se decidia o que escrever. Cacete, mais uma vez escreverei sobre a falta de inspiração? É! Acho que sim. Fazer o que! Disse para si mesmo. Foi então que lembrou, estava apaixonado. É, estava apaixonado. Amava. E era amado? Achava que sim. Esperava que sim. Tinha certeza... Não, não tinha porra de certeza nenhuma. A única certeza era que se apaixonará perdidamente. E deveria escrever sobre essa paixão? E por que não? Todo apaixonado gosta de escrever ridículos textos. Isso quando não escrevem cartas ridículas. Não com ele. Não tinha que escrever cartas. Cartas ficaram no passado, ficaram numa época romântica, numa época difícil de comunicação, rezando sempre para que a carta chegasse ao destinatário. Época que se angustiava dias após dias pela resposta. Isso quando a resposta chegava. Era uma época românica?

Mas porque uma época romântica? E hoje, não há romantismo? Se há é um romantismo diferente, mais frio, mais eletrônico, mais esdrúxulo, mais aventureiro, sem se preocupar com o ser humano, mas com o prazer descartável, do substituível a cada segundo, pouco se lixando com a pessoa, com o individuo. Quanto mais descartável, melhor. Quanto mais substituível melhor. Quanto mais sexo melhor. Antes os românticos morriam de tuberculose hoje, morre-se de AIDS sem ser romântico. Há um prazer destrutivo quase ou totalmente proposital. Há um prazer de instantes, não há mais o prazer único, de anos, de décadas, de mãos dadas além da vida.
E a suave aspereza do carpete ardia debaixo da sola dos seus pés.

Pastorelli

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