Para a Erica Meneguine
Com o destino reservado, talvez, traçado por ele, durante todos esses anos,
mais uma vez, numa manhã de sol encoberto por nuvens pouco densas, com a
promessa de um dia meio inverno e meio verão, ele que nada desejava, além de
viver a vida da maneira que lhe conviesse, fazendo o que lhe desse na telha,
claro, sem prejudicar terceiros, colocou os pés novamente, no calçamento de
pequenas pastilhas que orlava o quarteirão todo em volta do Conjunto Nacional,
na esperança de passar o dia, como disse o motorista do fretado: “Mais uma
sexta feira finalmente”, ao que ele respondeu: “Ainda bem que é mais uma sexta
feira novamente”, sem maiores consequências, além de cumprir seu enfadonho
trabalho.
Dominado por um sentimento minimalista, cuja estrutura alicerçada num
barroquismo cristalizado por antepassados acostumados pela dominação materna,
tendo a paternidade quase ausente de sua vida, atravessou a Avenida vendo de
longe o cachorro deitado ao lado do seu dono no vão da porta do Bradesco.
Mendigo e cachorro causavam admiração aos
passantes, principalmente aos que por ali passavam todos os dias. O cachorro de
pelos marrons claros e curtos, olhos azuis, dando a impressão de bem tratado,
nunca deixava seu dono sozinho. O mendigo sempre trajando a mesma roupa
maltrapilha, meio magro, barbudo, cabeludo parecendo sujo contrastava com o
cachorro bem tratado. E outro detalhe, o cachorro não era preso por nada, nem
coleira, corrente, nada, talvez, preso pela afeição que ele dedicava ao dono e,
logicamente, o dono a ele.
Parou em frente aos dois. O que poderia ter
levado um sujeito a viver na rua, a ser um morador de rua? Perguntou-se
mentalmente. Procurou o celular no bolso, se preparou para tirar uma foto,
quando se viu entrando numa sala modestamente mobiliada. Seu pensamento
procurava pela noiva que sabia estaria à espera dele. Procurou-a na cozinha, no
quintal, na varanda, subiu a escada, e ao abrir a porta do quarto, horrorizado,
deparou dois corpos nus na cama de casal. Transtornado, com a vista turva, saiu
devagar, desceu a escada, pegou o revólver que o pai guardava na despensa,
subiu a escada, e apontava a arma para o pai e a noiva que nada percebia,
quando se sentiu puxado pela barra da calça. Olhou para baixo e viu o cachorro
ganindo como se pedisse para que ele saísse dali. Por momentos, com a arma apontada
para os corpos enlaçados, ficou indeciso se apertava ou não o gatilho. Por fim,
abaixou a arma, deu as costas, desceu a escada e ganhou a rua. Andou o dia
inteiro e a noite toda, não sabia por onde andara e nem o que fizera, quando
percebeu, estava admirando as águas turvas do rio Tietê.
O silencio da madruga o empurrava a tomar uma
decisão. Com os olhos fixos na água preta iluminado pelos faróis, jogou as
pernas por sobre a amurada da Ponte das Bandeiras. Inclinou o corpo para
frente, começava soltar os dedos da amurada fria quando ouviu de novo o ganir
do cachorro. Voltou à cabeça para traz e para baixo, lá estava o fiel amigo que
o acompanhou o tempo todo sem reclamar. E agora, parecia que pedia para que ele
não pulasse nas águas escuras do rio venenoso. Desceu da amurada, se agachou,
abraçou o cachorro e, finalmente, chegou a uma decisão que deixou seu peito
aliviado. Tirou a carteira do bolso, retirou o dinheiro, e um por um foi
jogando no rio os documentos e os cartões dos bancos e, por último a própria
carteira. A partir desse dia não era mais a mesma pessoa, esqueceu-se de quem
era e passou a viver na rua junto com o seu amigo fiel companheiro. Essa é a
minha vida, disse para ele que o olhava em pé, em frente ao Bradesco.
Essa é a minha vida, ouviu dentro de sua mente, dentro de sua cabeça, e quando percebeu o cachorro e o mendigo não estavam mais a sua frente. Atravessavam a rua um ao lado do outro. Ainda pode ver o mendigo voltar à cabeça em sua direção e acenar um adeus com a mão encardida. Nunca mais viu os dois, nem o cachorro e nem o mendigo.
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