sábado, 12 de março de 2022

Carta 10

Quando pude ou tive a coragem em comprar meu primeiro Lp, lembro até qual foi: Atom Heart Mother, Pink Floyd, o afamado disco das vacas. Então, quando tive essa coragem, pois todo o meu salário desde que comecei a trabalhar entregava na mão da minha mãe, depois de fazer as contas, pagar o aluguel, luz, água, o armazém, onde os gastos eram anotados numa caderneta, é que ela me dava certa quantia para os meus prazeres. Mas quando pude comprar o meu primeiro Lp, sem que tivesse de esperar o cálculo das contas, me senti importante, ou que tinha subido na vida, sei lá, sei que descobri a felicidade de percorrer lojas e lojas em busca do disco favorito, do disco que eu queria. Subia e descia a Avenida São João, evitava as grandes lojas por causa do luxo e dos preços, procurava sempre as bibocas mais escondidas, ficava com as pontas dos dedos sujas, pretas pela poeira que grudava nos plásticos dos Lps. E quanto às capas! Às vezes passava horas e horas apreciando as capas, umas mais criativas que as outras, capas excelentes, com estupendos desenhos...

Hoje, engolidas como os cinemas, pelo aparecimento dos shoppings, não há mais aquele romantismo, não há mais aquelas lojas, as bibocas e muito menos as grandes, as famosas, as importantes lojas. Talvez até tenha um romantismo, mas é um romantismo de shopping, de ar-condicionado, de movimento concentrado, de lojas e lojas oferecendo consumismo rápido, descartável, de namoros que se trocam todos os dias, um romantismo que não percebemos.

A volúpia que eu tinha na procura do Lp favorito, passou de uma certa maneira nem tanto compulsiva, mesmo que eu tenha dito que não compraria nenhum DVD, para a procura de filmes clássicos, de filmes difíceis de serem vistos, de filmes da década de cinquenta, sessenta, até mais recente.

Assim foi que um dia ao vascular as gôndolas das Americanas, no shopping Tatuapé, é que deparei com um filme que nem sabia que existia. Ele estava lá, envolvido pelos títulos absurdos chamativos, como se estivesse a minha espera. Ao ler o título, perguntei: que filme é esse. Deve ser um documentário. Valerá a pena comprá-lo? Até então não tinha atinado com o nome do diretor. Sem saber o do porquê, fiquei com o DVD rodando na mão por um bom par de segundos. O título não dizia nada, só confirmava minha suspeita de ser documentário. Palhaços era o título. Palhaços, intrigado li duas até três vezes. Foi quando, num instante de descontração, até pensando em devolver, notei o nome do diretor. E como um nome importante faz mudar um pensamento. Um nome que você sabe que é coisa boa, que não é picaretagem, mesmo com um título daqueles. Assim meio desaparecido na capa do DVD estava o nome do diretor: Federico Fellini. Não pensei duas vezes. Comprei.  

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