Duas horas! Duas ou
mais? Não lembro. Sei que a porra do elevador demorou bem uma ou duas horas. O
dito cujo não parava, passava direto. O hall do prédio já estava formando duas
filas. Reclamações pipocavam de um lado para outro, de uma ponta para outra da
fila. O pessoal vindo do almoço, tendo uma hora apenas, se impacientava. Alguns
gritavam impropérios chulos ferindo os ouvidos dos mais sensíveis,
principalmente das mulheres, apesar de que algumas faziam coro aos
descontentes. Outros, os apressados, subiam a escada os dez andares ou mais
até. Outros ainda aproveitavam que o elevador descia, descia com ele, até o
subsolo, para depois subir, o que ocasionava sua subida direto sem parar no
térreo. Insuportável à situação, gritavam:
- Queremos elevador,
queremos elevador.
Sem saber como,
surgiram cartazes com letras garrafais pedindo a volta ao Conjunto Nacional. Os
seguranças, apesar de corpulentos, feito armário de estádio de futebol, sentiam
que perdiam terreno devido o aumento dos atrasados. Era impossível subir as
escadas se encontravam atulhadas de pessoal que subiam contra os que desciam.
Estrategicamente, os bombeiros, sem que soubessem quem os acionara, atentos
observavam os movimentos. Alguns camelôs, vendo a aglomeração à porta do
prédio, armaram suas barracas de bugigangas, de pipocas, de salgadinhos e
cafés. Tinha até um japonês mais com cara de italiano do que outra coisa,
oferecendo yaksoba feito na hora. A situação se complicou quando duas grávidas
desmaiaram e uma delas, apesar de estar no sétimo mês, entrou em processo de
parto. E como complicou a situação a partir disso. Foi uma gritaria quase
geral. Uns corriam para salvar as duas, de um lado para o outro, outros se
afastavam apavorados. Os seguranças ao invés de ajudarem, atrapalhavam cada vez
mais. Não sabiam se telefonavam pedindo uma ambulância ou se acudiam a
parturiente que entrou em trabalho. Um delicado, engravatado, colocou a mão na
testa e, propositadamente afinada, gritou numa voz aveludada:
- Help! I am going
to passa aut, e lentamente escorado a parede desabou revirando os olhos.
Nisso surgiu o
pessoal da brigada de incêndio, com seus jalecos de cores esfuziantes, o que
provocou certo frisson apavorado, em querer saber onde estava sendo o incêndio.
Apalermados, pois fizerem curso para combater incêndio e não para apaziguar
multidões, os brigadeiros, meios que desajeitados, foram controlando a situação
para que todos pudessem subir sem empurra-empurra. Para isso precisaram dos
bombeiros que esperavam apenas um chamado para entrarem em ação. Colocaram os
elevadores no manual com a ordem de só subirem cheios e descerem vazios diretos
para o térreo.
As grávidas finalmente foram colocadas na ambulância que rápida disparou para o hospital. Dispersados os camelôs aos gritos de “rapa”, tendo o japonês com cara de italiano, quebrado seu carrinho de yakisoba num buraco da calçada, rolando ele, carrinho, yakisoba pela ladeira abaixo. Dali uma hora ou um pouco mais, a situação estava controlada. Os elevadores voltaram a funcionar no automático e, para o bem de todos e prazer das firmas e sossego do prédio, todos voltaram as suas mesas trabalhando alegremente. O delicado engravatado, depois de horas, esquecido, voltou a si, entrou no elevador pressionando o número do andar com gestos de raiva, desiludido porque não tinha virado purpurina.
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