domingo, 13 de março de 2022

Carta 9


Duas horas! Duas ou mais? Não lembro. Sei que a porra do elevador demorou bem uma ou duas horas. O dito cujo não parava, passava direto. O hall do prédio já estava formando duas filas. Reclamações pipocavam de um lado para outro, de uma ponta para outra da fila. O pessoal vindo do almoço, tendo uma hora apenas, se impacientava. Alguns gritavam impropérios chulos ferindo os ouvidos dos mais sensíveis, principalmente das mulheres, apesar de que algumas faziam coro aos descontentes. Outros, os apressados, subiam a escada os dez andares ou mais até. Outros ainda aproveitavam que o elevador descia, descia com ele, até o subsolo, para depois subir, o que ocasionava sua subida direto sem parar no térreo. Insuportável à situação, gritavam:

- Queremos elevador, queremos elevador.

Sem saber como, surgiram cartazes com letras garrafais pedindo a volta ao Conjunto Nacional. Os seguranças, apesar de corpulentos, feito armário de estádio de futebol, sentiam que perdiam terreno devido o aumento dos atrasados. Era impossível subir as escadas se encontravam atulhadas de pessoal que subiam contra os que desciam. Estrategicamente, os bombeiros, sem que soubessem quem os acionara, atentos observavam os movimentos. Alguns camelôs, vendo a aglomeração à porta do prédio, armaram suas barracas de bugigangas, de pipocas, de salgadinhos e cafés. Tinha até um japonês mais com cara de italiano do que outra coisa, oferecendo yaksoba feito na hora. A situação se complicou quando duas grávidas desmaiaram e uma delas, apesar de estar no sétimo mês, entrou em processo de parto. E como complicou a situação a partir disso. Foi uma gritaria quase geral. Uns corriam para salvar as duas, de um lado para o outro, outros se afastavam apavorados. Os seguranças ao invés de ajudarem, atrapalhavam cada vez mais. Não sabiam se telefonavam pedindo uma ambulância ou se acudiam a parturiente que entrou em trabalho. Um delicado, engravatado, colocou a mão na testa e, propositadamente afinada, gritou numa voz aveludada:

- Help! I am going to passa aut, e lentamente escorado a parede desabou revirando os olhos.

Nisso surgiu o pessoal da brigada de incêndio, com seus jalecos de cores esfuziantes, o que provocou certo frisson apavorado, em querer saber onde estava sendo o incêndio. Apalermados, pois fizerem curso para combater incêndio e não para apaziguar multidões, os brigadeiros, meios que desajeitados, foram controlando a situação para que todos pudessem subir sem empurra-empurra. Para isso precisaram dos bombeiros que esperavam apenas um chamado para entrarem em ação. Colocaram os elevadores no manual com a ordem de só subirem cheios e descerem vazios diretos para o térreo.

As grávidas finalmente foram colocadas na ambulância que rápida disparou para o hospital. Dispersados os camelôs aos gritos de “rapa”, tendo o japonês com cara de italiano, quebrado seu carrinho de yakisoba num buraco da calçada, rolando ele, carrinho, yakisoba pela ladeira abaixo. Dali uma hora ou um pouco mais, a situação estava controlada. Os elevadores voltaram a funcionar no automático e, para o bem de todos e prazer das firmas e sossego do prédio, todos voltaram as suas mesas trabalhando alegremente. O delicado engravatado, depois de horas, esquecido, voltou a si, entrou no elevador pressionando o número do andar com gestos de raiva, desiludido porque não tinha virado purpurina.

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