quinta-feira, 10 de março de 2022

Carta 12

Sabe meu amigo, que tempos atrás, antes do advento do DVD, tínhamos as fitas VHS, não é mesmo? E toda vez que assistíamos a um filme, tínhamos que rebobinar a fita, era uma obrigação das locadoras, certo? Então, ao invés de adotar o método do Doutor Breuer, Limpeza da chaminé, adotarei o método de Rebobinar a fita, expressão que foi usada por uns tempos e que hoje caiu no esquecimento. O que não deixa de ser um excelente exercício mental. Se todas as noites, deitado, rebobinasse a fita diária, estarei exercitando a mente. Porém, ao que me refiro é um caso diferente. Eu explico, quer dizer, tentarei explicar, como sabe sou péssimo em explicar as coisas. Mas vamos lá.

Sentia-me preso dentro do fretado. Ao constatar que realmente estava preso, não me veio na hora, demorou um pouco. Sentia-me indisposto, impaciente, só tinha espaço da minha poltrona, só poderia encolher e esticar as pernas para uma direção só, por baixo da poltrona da frente e, por que me sentia assim? Por que a poltrona ao lado, do lado corredor, por dois dias veem sendo ocupada por uma moça, morena, bonita, que só acorda para me dar passagem. Assim durante toda a viagem pouco lhe interessa como eu estou, ou do porque me impacientava. Portanto, comecei a usar o método de Limpeza de chaminé, e a formular perguntas a mim mesmo. Por que me impacientava? Por que me sentia preso? Resumindo: impacientava-me por estar dentro do fretado durante quase uma hora sem poder me esticar. Sentia-me preso por causa da bela morena que profundamente dormia, se sonhava ou não pouco me dava saber. Preso porque não podia esticar as pernas pela poltrona onde ela estava. Preso porque só podia ter pequenos movimentos para não esbarrar e acordar a bela morena. Ao chegar a essa conclusão, decidi que era necessário eliminá-la. E como eliminar um problema? Pensando em coisas, ocupando a mente em algo fora dali, desligar a mente do corpo, das pernas, bem longe dali. Foi então que comecei a pensar em chaminés.

É em chaminé! Pense meu amigo. Será que uma criança hoje sabe o que é chaminé? Vamos supor uma criança de sete ou mesmo dez ou doze anos. Conhecerá uma chaminé? Talvez, sim através de filmes, desenhos, ou mesmo alguma revista infantil. E aumente a sua imaginação e veja a criança perguntando a mãe:

- Mãe, o que é chaminé?

Se a mãe dele for daquelas que gostam de passar conhecimentos aos filhos, dirá o que é uma chaminé, explicará em todos os detalhes, até dará um exemplo mostrando a bela coreografia dos Limpadores de chaminé do estupendo filme Mary Poppins, não é? Mas se for àquelas mães que não estão nem aí com os filhos. O que ela responderá?

- Pergunte para a tua professora, afinal pago uma escola para que? Para que eduque meus filhos.

O que você acha como será a formação dessa criança? Deturpada não é? Mas isso é assunto para outra carta crônica, não acha?
Foi então que pela milionésima não sei quantas vezes pisei na calçada da Avenida Paulista, formulei outra pergunta:

- Como surgiu no meu pensamento essa história de chaminé?
Fiquei por um bom tempo matutando sem ter uma resposta. Passei no banco, na banca, atravessei a Paulista, peguei o elevador, sentei-me em frente ao micro, tomei café, e não tinha ainda atinado como surgiu o assunto sobre chaminé. Só ao começar escrever essa carta, depois da terceira ou quarta linha é que atinei o do por que: o método do Doutor Breuer, Limpeza de chaminé, por causa dele é que surgiu o assunto chaminé em minha mente. Bendito sejam os livros, amém.

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