sábado, 5 de março de 2022

Carta 18

          

                   Para Virgílio 

          
A dor latejava no lado esquerdo. Conforme se mexia trespassava o cérebro indo se alojar no outro lado. Evitava assim, mexer a cabeça. Sentia suor frio. Passou no boteco. Pediu uma talagada, pouco se importando com a cara de buldogue do Nilton, e virou o copo de uma vez. A bebida desceu rasgando a garganta bateu no estômago e, voltou na mesma velocidade que descera. A boca se encheu de vários sabores obrigando-o arrotar azia. Sentiu-se melhor.
Durante o trajeto do ônibus, se entregou ao sono, só acordando ao ser tocado no ombro pela Thais, a coordenadora.
No momento em que pisou no calçamento, a luz da manhã meio que ensolarada, se infiltrou nos olhos desnorteando-o. Parado no mar de pessoas, sendo esbarrado de vez enquanto, se aprumou, esticou o corpo e, com o pé um na frente do outro, se equilibrou e começou a andar. Fitou a frente. Não conseguia distinguir o movimento, parecia tudo uma mancha única. Precisava de outra talagada. Entrou na primeira lanchonete e pediu mais uma. Pela segunda vez a bebida desceu rasgando as paredes da garganta. Ao bater no estômago, a boca foi inundada de saliva ácida obrigando-o, novamente a arrotar. Agora sim! Estava pronto para enfrentar a segunda-feira. Recuperado as forças, atravessou a avenida, e em dois segundos estava sentado à frente do computador.
Relanceando os olhos pelo ambiente, num sentido de cento e oitenta graus, percebeu o clima de piadas e chacotas com direito a bandeiras e fotos dependurados em várias baias. Franziu a testa. Não gostava desses fanáticos por futebol. Por infelicidade, o time que mais detestava tinha sido campeão. Numa frustrada tentativa, não conseguiu fechar os ouvidos ás babaquices dos amigos. O pior de tudo era o Delano. Sentado a sua frente, além de ser fanático, começou a cantarolar de lábios fechados o hino do time vencedor. O sangue começou ferver. Pulsava dentro da veia sem proporção nenhuma de que fosse se acalmar. Rapidamente desceu as escadas, queria evitar encontrar com fanáticos, disse a si mesmo. Novamente, agora faltando pouco para a hora do almoço, entrou no bar e mandou para baixo mais uma talagada. Pronto, readquiriu as forças. Estava pronto a enfrentar o vozerio absurdo do pessoal.
Entretido nos afazeres, percebeu que estava sozinho na sala. Decidiu descer. Mas ao passar pela baia do Valtirene foi que percebeu a toalha, com o emblema do time, pendurada. Sorriu maldosamente. Tirou o isqueiro do bolso, acendeu e encostou à ponta da toalha. A chama amarela lambeu o tecido felpudo avançando lentamente. Rapidamente, abriu a porta da escada e quase num pulo, estava outra vez no restaurante tomando outra talagada.
Dessa vez demorou mais para voltar. Afinal estava na hora do almoço e ele não precisava chegar na hora certa. Assim sendo, pediu outra e, dessa vez, saboreando cuidadosamente cada gole, ficou imaginando o que estaria acontecendo. Terminado a degustação, gostava dessa palavra poucas vezes empregada, pagou e saiu.

Ao entrar na sala depois de liberar a porta de vidro passando o crachá no lugar indicado, espantou com a normalidade reinante. Parecia que nada havia acontecido. Onde estava aquela merda de toalha? No lugar em que estava pendurada via-se uma pequena mancha preta. Sinal de que queimara. Curioso não podia perguntar para não levantar suspeita. Foi então que Valtirene saindo do banheiro trazia a mão à toalha. Reparou que ela estava toda molhada. Deduziu que Valtirene chegou a tempo de apagar o fogo. Como Valtirene nada disse, nem se revoltou, ficou quieto, ficou na sua.
Ninguém ficou sabendo de sua travessura. Só tempos depois, quando fora afastado por doença, é que contou o que fizera. Como sabiam do seu alcoolismo ninguém acreditou. Indagado, Valtirene, talvez medroso, não confirmou nada. Assim, mais um boato, mais uma história fora adicionado a tantas histórias que corria sobre ele.
Três meses depois, foi noticiado o seu falecimento.

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