Para
Virgílio
A dor latejava no lado esquerdo. Conforme se mexia trespassava o cérebro indo
se alojar no outro lado. Evitava assim, mexer a cabeça. Sentia suor frio.
Passou no boteco. Pediu uma talagada, pouco se importando com a cara de
buldogue do Nilton, e virou o copo de uma vez. A bebida desceu rasgando a
garganta bateu no estômago e, voltou na mesma velocidade que descera. A boca se
encheu de vários sabores obrigando-o arrotar azia. Sentiu-se melhor.
Durante o trajeto do ônibus, se entregou ao sono, só acordando ao ser tocado no
ombro pela Thais, a coordenadora.
No momento em que pisou no calçamento, a luz da manhã meio que ensolarada, se
infiltrou nos olhos desnorteando-o. Parado no mar de pessoas, sendo esbarrado
de vez enquanto, se aprumou, esticou o corpo e, com o pé um na frente do outro,
se equilibrou e começou a andar. Fitou a frente. Não conseguia distinguir o
movimento, parecia tudo uma mancha única. Precisava de outra talagada. Entrou
na primeira lanchonete e pediu mais uma. Pela segunda vez a bebida desceu
rasgando as paredes da garganta. Ao bater no estômago, a boca foi inundada de
saliva ácida obrigando-o, novamente a arrotar. Agora sim! Estava pronto para
enfrentar a segunda-feira. Recuperado as forças, atravessou a avenida, e em
dois segundos estava sentado à frente do computador.
Relanceando os olhos pelo ambiente, num sentido de cento e oitenta graus,
percebeu o clima de piadas e chacotas com direito a bandeiras e fotos
dependurados em várias baias. Franziu a testa. Não gostava desses fanáticos por
futebol. Por infelicidade, o time que mais detestava tinha sido campeão. Numa
frustrada tentativa, não conseguiu fechar os ouvidos ás babaquices dos amigos.
O pior de tudo era o Delano. Sentado a sua frente, além de ser fanático,
começou a cantarolar de lábios fechados o hino do time vencedor. O sangue
começou ferver. Pulsava dentro da veia sem proporção nenhuma de que fosse se
acalmar. Rapidamente desceu as escadas, queria evitar encontrar com fanáticos,
disse a si mesmo. Novamente, agora faltando pouco para a hora do almoço, entrou
no bar e mandou para baixo mais uma talagada. Pronto, readquiriu as forças.
Estava pronto a enfrentar o vozerio absurdo do pessoal.
Entretido nos afazeres, percebeu que estava sozinho na sala. Decidiu descer.
Mas ao passar pela baia do Valtirene foi que percebeu a toalha, com o emblema
do time, pendurada. Sorriu maldosamente. Tirou o isqueiro do bolso, acendeu e encostou
à ponta da toalha. A chama amarela lambeu o tecido felpudo avançando
lentamente. Rapidamente, abriu a porta da escada e quase num pulo, estava outra
vez no restaurante tomando outra talagada.
Dessa vez demorou mais para voltar. Afinal estava na hora do almoço e ele não
precisava chegar na hora certa. Assim sendo, pediu outra e, dessa vez,
saboreando cuidadosamente cada gole, ficou imaginando o que estaria
acontecendo. Terminado a degustação, gostava dessa palavra poucas vezes
empregada, pagou e saiu.
Ao entrar na sala
depois de liberar a porta de vidro passando o crachá no lugar indicado,
espantou com a normalidade reinante. Parecia que nada havia acontecido. Onde
estava aquela merda de toalha? No lugar em que estava pendurada via-se uma
pequena mancha preta. Sinal de que queimara. Curioso não podia perguntar para
não levantar suspeita. Foi então que Valtirene saindo do banheiro trazia a mão
à toalha. Reparou que ela estava toda molhada. Deduziu que Valtirene chegou a
tempo de apagar o fogo. Como Valtirene nada disse, nem se revoltou, ficou
quieto, ficou na sua.
Ninguém ficou sabendo de sua travessura. Só tempos depois, quando fora afastado
por doença, é que contou o que fizera. Como sabiam do seu alcoolismo ninguém
acreditou. Indagado, Valtirene, talvez medroso, não confirmou nada. Assim, mais
um boato, mais uma história fora adicionado a tantas histórias que corria sobre
ele.
Três meses depois, foi noticiado o seu falecimento.
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