quinta-feira, 17 de março de 2022

Carta 5


Espero que esteja tudo bem. Tenha passado um feriado prolongado bom, sem maiores consequências a não ser, apenas descansar. Talvez tenha passado uma sexta boa, com sol, descanso, diversão ou, talvez passasse o dia todo nos preparos para o almoço de Páscoa, o reencontro com Cristo, é isso? Não sei, não sou um fervoroso católico e muito menos um católico praticante.

Sei que para mim o almoço de Páscoa era a maior alegria. Os familiares, ao todo, entre tios, tias, primos, eram mais ou menos umas 50 pessoas, se reuniam em volta de uma mesa, onde não faltava alimento, num almoço de farra, brincadeiras, trocas de ovos, e, se houvesse, pois sempre tem algum problema financeiro, familiar ou alguma discórdia entre um parente ou outro, nesse dia era esquecido. Ficava fora da mesa, não estragava o comensal pascal de todos os anos. Era uma mesa improvisada enorme, sempre na casa de alguém, ou na fazenda, brincadeiras, vinho, não lembro se havia cerveja, mas acho que nunca faltava chope, e, no meio do almoço, de repente, começava a voar um osso direto no prato do outro, ou no copo, às vezes era uma tampinha de refrigerante, pois naquela época era tampinha de metal com cortiça, na qual a molecada fazia um furo no meio da tampinha e bebia por ali. O mais bacana, pelo menos achava, era que todos ajudavam todos, as mulheres a fazer o almoço, depois lavar a bagunça... Bom essa era a minha visão de menino que, junto com os primos, nos entretíamos com brinquedos na rua, pelo quarteirão de esconde-esconde, de bola, queimada, policia ladrão, às vezes saia uma briga sem maiores consequências, até altas horas. As rádios, Ondas Médias, as tais OM, pois a FM começava a surgir, tocavam musicas orquestrais, na quinta e na sexta, era o maior respeito, nada de musica profana.

Hoje como tudo se transforma se, para melhor ou pior, vai lá saber, o modo como vemos a semana santa é diferente. Hoje os rádios têm suas programações normais, a televisão naquela época estava nem começando, e desde que a conheço creio que nunca houve uma vez que fosse interrompida ou desligada por causa da semana santa. O almoço continua, as famílias se encontram, se conversam, brincam, mas com um ou outro sentido, não há mais tampinha de metal com cortiça, não há mais osso voando de um prato para o outro, não há mais tanta crianças, as poucas são obrigadas a conviver entre adultos e acabam desenvolvendo, as neuroses irreversíveis, sendo obrigadas a viver sem espaço ou com algum descaso, provocado pela necessidade de trabalho, dos pais involuntariamente.

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