sábado, 16 de abril de 2022

O assalto.


Quinze horas. A fila parada dava-lhe nos nervos. Angustiava-se por nada. Como por nada? Passou por maus momentos e não tinha que se angustiar? As coisas negativas estavam sempre o acompanhando. Quando pensava que os eixos correriam nos trilhos, pronto, catacumba, o trem se descarrilava e era um sufoco para colocar nos eixos novamente. E, ali, estava ele mais uma vez tentando colocar os eixos debaixo das rodas do trem. Esperava que agora ele, o trem, andasse seguro por um bom tempo.

Uma coisa que ele falou, logo que deu entrada na delegacia, foi à falta de policiais na Avenida. O delegado não gostou muito não, mas também não retrucou. Ficou quieto anotando as informações que ele passava. O que irritava foi às minúcias que o delegado o interrogava, como se ele estivesse inventando. Que coisa! Um dos pontos que mais intrigava o delegado era a quantia que ele dizia ter no bolso. Como uma pessoa pode ter essa quantia assim no bolso? Não resolvia, aliás, por mais de três vezes explicou que ele tinha essa quantia no bolso por ter feito um saque no caixa eletrônico do banco.
- Que banco?

- América do Sul.

- Que agencia?

- Agencia da Paulista.

Ao dizer a agencia, notou que o delegado trocou um olhar com os policiais. Percebendo que ele notara a troca de olhares, o delegado disse:
- Bem, hoje com você já é a terceira vítima que sofre com esse mesmo golpe.

- E...

- E todos foram do mesmo banco, América do Sul.

- Isto quer dizer?

- Por enquanto nada.

- Como nada? A meu ver aqueles camelôs ficam de olho em quem saca, pois o vidro é transparente e avisa o comparsa que acompanha a vitima até ter a oportunidade em aplicar o golpe.
- É, mas não sabemos se é um ou dois ou quantos.

- Quanto a isso é com o senhor. Sinto muito, vim fazer o boletim de ocorrência.
- Ta certo, assine aqui.

José sairá do banco apreensivo. Sabia que não podia ter aquela quantia no bolso, mas era preciso, tinha que depositar no Bradesco. Com um olho nas costas e outro nos lados, descia a Rua Augusta num passo meio que apertado, desviando dos pedestres da melhor maneira que a agitação permitia. Ao passar em frente à vitrine, onde há dias vinha namorando uma calça jeans, por uma fração de segundo, apenas uma parada repentina, foi empurrado ao mesmo tempo em que sentiu uma mão no seu bolso. Devido ao vai e vem das pessoas, não foi possível segurar a mão do ladrão, pois quase fora jogado para fora da calçada, por pouco o ônibus não o atropelou. Desnorteado, verificou, os oitocentos reais haviam sido surripiados do seu bolso. Entrou em pânico, já viu seu nome sujo na praça, metade estava destinada as contas tendo, até algumas atrasadas,
Bom, como diz os conformistas: ainda bem que foi só o dinheiro, o pior seria se tivessem tirado a sua vida. É, tirado a vida, o que me parece à mesma coisa, não parece? A fila começava a andar. Segundos depois, passava por baixo do vidro os oitocentos reais que a empresa adiantará o qual, será descontado parcelamento no pagamento. Mais uma vez saiu do banco, mas agora tinha a certeza de que nem tudo estava perdido. Sorriu, havia uma pequena crença de luz ao virar a esquina.

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