quinta-feira, 14 de abril de 2022

O acidente


Apressado, sempre apressado, rugiu a mente ao olhar pelo ambiente do quarto checando a memória. Bom, penso que não estou esquecendo nada. Colocou sobre a escrivaninha o bilhete dentro do envelope branco. Fechou a porta e, já apertava o botão chamando o elevador, quando resolveu voltar. Abriu a porta e, rasgou o bilhete com envelope e tudo e jogou no lixo. Melhor ele não saber agora, mais tarde visitaria o pai e, contaria tudo. Isto é, se o velho conseguisse entender. Ao virar a cabeça olhando por cima do ombro, viu o livro. Não podia deixar o livro. Pegou o volume de cima da mesa, olhou o título: Imortal, de Anderson Santos. Mais um livro sobre vampirismo, disse com um sorriso nos lábios. Presente do seu amigo poeta Osvaldo, cara metido a poeta, ganhador de alguns prêmios não lá muito importantes. Vou ler com carinho, disse jogando o livro para dentro da mochila.

Depois de mais de vinte anos sob o domínio paterno, achou que estava no momento de ele próprio fazer sua vida. Construir seu caminho. Sair da sombra do pai. Tudo bem crescera e vivera à custa paterna, devia lhe isso, sem dúvida, não estava desprezando todos esses anos que foram dedicados a ele, só que se sentia sufocado, tolhido, não podia fazer nada sem antes pedir autorização ao velho. Droga! Tenho minha vida, disse a meia voz ao subir para o ônibus. Tinha marcado com o amigo de se encontrarem em frente ao Masp.

Rodrigo, o Rodriguinho como era denominado, o que detestava, para diferenciar do pai, Rodrigo Alves de Sousa, o Sousa, o Senhor Sousa, ou o Delegado Sousa, como sempre ouviu chamarem o pai. Agora que não tinha mais a avó para interpor entre eles, não via mais o do porque permanecer junto ao pai. Muito menos com a mãe, uma mulher desprovida de maternidade, que se lembre nunca a viu cuidando dele. Quem fazia tudo era a avó paterna, essa na verdade era a sua mãe, dissera um dia ao pai.

- Escuta... Você não... Bem, sabe o que quero dizer.

- Se sou gay? É isso? Tem medo que seu filhinho seja um veado, uma mulherzinha?  Tenha dó, vê se enxerga velho.

- E você é?

- O que o senhor acha?

- Bom não acho nada.

- Então é melhor o senhor achar alguma, gritou batendo a porta da rua.
Que merda, disse ao entrar no carro.

- O que foi você disse?

- Júlio, meu pai, Julio.

- O que tem ele?

- Vamos sair logo daqui que vem vindo um policial.

Júlio olhou para a esquerda, ligou o pisca, mudou a marcha, pisou no acelerador, virou a direção à direita para entrar na Avenida Paulista e, não viu o ônibus que abalroou o veículo jogando-o longe, que por sua vez, bateu no carro a frente e capotou.

Quando Sousa chegou já tinham removido o filho para o hospital. Agora estava ali naquele ambiente frio sentindo o calor da morte. O amigo do filho tivera morte instantânea. Rodrigo ficou em coma durante uma semana e, durante esse tempo todo Sousa não saiu do lado do filho.

Uma semana depois estava enterrando o filho na bela cripta que tinha no cemitério ao lado da avó.

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