Apressado, sempre apressado, rugiu a mente ao olhar pelo ambiente do quarto
checando a memória. Bom, penso que não estou esquecendo nada. Colocou sobre a
escrivaninha o bilhete dentro do envelope branco. Fechou a porta e, já apertava
o botão chamando o elevador, quando resolveu voltar. Abriu a porta e, rasgou o
bilhete com envelope e tudo e jogou no lixo. Melhor ele não saber agora, mais
tarde visitaria o pai e, contaria tudo. Isto é, se o velho conseguisse
entender. Ao virar a cabeça olhando por cima do ombro, viu o livro. Não podia
deixar o livro. Pegou o volume de cima da mesa, olhou o título: Imortal, de
Anderson Santos. Mais um livro sobre vampirismo, disse com um sorriso nos
lábios. Presente do seu amigo poeta Osvaldo, cara metido a poeta, ganhador de alguns
prêmios não lá muito importantes. Vou ler com carinho, disse jogando o livro
para dentro da mochila.
Depois de mais de vinte anos sob o domínio
paterno, achou que estava no momento de ele próprio fazer sua vida. Construir
seu caminho. Sair da sombra do pai. Tudo bem crescera e vivera à custa paterna,
devia lhe isso, sem dúvida, não estava desprezando todos esses anos que foram
dedicados a ele, só que se sentia sufocado, tolhido, não podia fazer nada sem
antes pedir autorização ao velho. Droga! Tenho minha vida, disse a meia voz ao
subir para o ônibus. Tinha marcado com o amigo de se encontrarem em frente ao
Masp.
Rodrigo, o Rodriguinho como era denominado, o
que detestava, para diferenciar do pai, Rodrigo Alves de Sousa, o Sousa, o
Senhor Sousa, ou o Delegado Sousa, como sempre ouviu chamarem o pai. Agora que
não tinha mais a avó para interpor entre eles, não via mais o do porque
permanecer junto ao pai. Muito menos com a mãe, uma mulher desprovida de
maternidade, que se lembre nunca a viu cuidando dele. Quem fazia tudo era a avó
paterna, essa na verdade era a sua mãe, dissera um dia ao pai.
- Escuta... Você não... Bem, sabe o que quero
dizer.
- Se sou gay? É isso? Tem medo que seu filhinho
seja um veado, uma mulherzinha? Tenha dó, vê se enxerga velho.
- E você é?
- O que o senhor acha?
- Bom não acho nada.
- Então é melhor o senhor achar alguma, gritou
batendo a porta da rua.
Que merda, disse ao entrar no carro.
- O que foi você disse?
- Júlio, meu pai, Julio.
- O que tem ele?
- Vamos sair logo daqui que vem vindo um
policial.
Júlio olhou para a esquerda, ligou o pisca,
mudou a marcha, pisou no acelerador, virou a direção à direita para entrar na
Avenida Paulista e, não viu o ônibus que abalroou o veículo jogando-o longe,
que por sua vez, bateu no carro a frente e capotou.
Quando Sousa chegou já tinham removido o filho
para o hospital. Agora estava ali naquele ambiente frio sentindo o calor da
morte. O amigo do filho tivera morte instantânea. Rodrigo ficou em coma durante
uma semana e, durante esse tempo todo Sousa não saiu do lado do filho.
Uma semana depois estava enterrando o filho na bela cripta que tinha no cemitério ao lado da avó.
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