Não que o esperar pudesse incomodá-lo. Não claro que não. O que o incomodava
era a demora que se prolongava além do normal. Não se considerava um chato, é
que as pessoas o ludibriavam na cara dura. Parecia que ele não se importava com
isso. No entanto, a fraqueza começava a dar sinais de fortalecida, coisa que
vinha lentamente, há muito tempo, se alimentando dos fracassos apoiado na
timidez. Abria os olhos. Abria a mente. E descobria o encoberto. Descobria as
malvadezas se, involuntária ou não, daqueles que ele pensava que o amava. O mar
de transeuntes passava por ele como se não o vissem. Passavam feitas ondas de
vozes, sons, inaudíveis, carnes sacolejando suas obscenidades provocando-o. No
longe, conturbada a visão parecia que todos eram uma só pessoa. Como demorava
em chegar!!! Porra! Não tinham marcado em frente à Gazeta? As precisamente
vinte horas em ponto? E onde estava ela que não aparecia? Queria ir embora. Não
podia. Dera sua palavra. Vou esperar, sim, disse ele diante da insistência
dela.
Vou esperar, sim, maldita a hora em que dissera isso. Promessa tem que ser
cumprida, apesar de que não era bem uma promessa, dera sua palavra e agora
tinha que mantê-la, é isso. Se houvesse um motivo que anulasse tudo, que
impedisse dele estar esperando-a. Mas não, nada impedirá de acionar uma trava
fazendo com que a máquina parasse. Nada! Nada!
Seus olhos cansados pela impaciência viam em
cada transeunte a figura de Raquel. Na apaixonada querência de que ela chegasse
logo, via numa japonesa a figura da mulher, pudesse ser alemã, mulata, negra, o
que fosse o coração exultava, não de alegria, e sim, de que a espera estava no
fim. Ledo engano, a vista turva confundia as aparências. Então, forçava a mente
a lembrar com que roupa ela sairá de manhã. Não conseguia. Vinham-lhe todos os
tipos de roupas, blusa, saia, vestido, calça jeans, sapato, sandália, e nada de
acertar. E o cabelo? É mesmo! E cabelo? Ah! Era difícil, pois todos os dias ela
se transformava, mudava o penteado de tal maneira que não tinha certeza se era
a Raquel que conhecia.
Enervado, andando de um lado para outro, subira e descera varias vezes as
escadas da Gazeta, indeciso não sabia o que fazer. Continuar esperando? Sim,
claro, dissera que a esperaria. Mas droga, cadê a consciência dela em deixar
ele plantado na Paulista como um idiota sem noção de que atitude tomar. Nisso
resolveu andar um pouco mais, isto é, ir até a esquina. Qual não foi a sua
surpresa ao vê-la conversando com a Rute. Ao vê-lo Raquel se despediu
rapidamente da amiga e se aproximou dele.
Estavam a um bom tempo caminhando lado a lado sem pronunciar uma palavra um
para o outro. Em determinado momento, Raquel fez menção em pegar a mão de
Renato. Mas este recuou, não deixou. Nada disse, continuou quieta, pensando. Se
ele estivesse com bronca ou raiva, deveria se explodir, gritar, assim se sentiria
melhor. O silêncio torturava. Por outro lado não daria a oportunidade de ser a
primeira a falar. Se ele quisesse que fosse o primeiro e não eu, disse para
sim. Renato não encontrava as palavras necessárias que diriam tudo o que estava
querendo dizer. A mente criava um vazio que remoia deixando-o numa passividade
aterradora. Rute se aproximara de Raquel, como dissera, por amizade apenas. O
que ela e nem Raquel percebiam que essa amizade se interpunha entre ele e
Raquel e, que Raquel por sua vez, demonstrava não se importar com os
sentimentos de Renato.
Por fim, entre os dentes, conseguiu articular frase a qual, foi preciso Raquel
prestar atenção. Já não lhe disse o que eu penso de Rute? Já não lhe disse que
essa menina ou mulher, seja lá o que ela for não é boa companhia? Ah! Quer
dizer que está com ciúmes dela? Retrucou Raquel pondo um pouco de ironia na
fala. Ciúmes? Ah quem dera eu ter ciúmes, se eu tivesse lhe diria. Você já
estaria morta, já teria assassinado você e mais ela. Raquel se assustou com a
veemência com que ele empregou na voz. Pensou em recuar, mas decidiu avançar no
ataque. E por que não? Claro que está com ciúme e, de uma mulher, está me
chamando de lésbica? Renato crispou as mãos enfiando a unha na palma para não
desferir um soco. Não me importo o que você faz ou deixa de fazer, só sei que
depois que você conheceu essa menina, você é outra, não é a que eu conhecia.
Quase que ela expressou em voz alta. Meu caro é amor, isso é amor, mas preferiu
ficar calada, idiota como ele era, compreenderia erroneamente.
Foi então que Renato compreendeu. Tudo não
estava mais existindo, tudo agora era outra coisa, havia em seu peito
sentimentos outros que faria com que caminhassem caminhos ainda não caminhados.
Surpreendeu-se. Não se sentia frustrado, desanimado e muito menos magoado, o
que viu foi uma estrada comprida, não larga, com grandes árvores costeando as
margens para que ele pudesse ter sombra suficiente na sua nova caminhada.
Sorriu alegre, não se preocupou em dar adeus para Raquel, sabia que ela estava
compreendendo o que ele compreendia agora. Assim se pós a caminhar na nova
estrada sem olhar uma única vez para trás,
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