quarta-feira, 13 de abril de 2022

Os apaixonados


Não que o esperar pudesse incomodá-lo. Não claro que não. O que o incomodava era a demora que se prolongava além do normal. Não se considerava um chato, é que as pessoas o ludibriavam na cara dura. Parecia que ele não se importava com isso. No entanto, a fraqueza começava a dar sinais de fortalecida, coisa que vinha lentamente, há muito tempo, se alimentando dos fracassos apoiado na timidez. Abria os olhos. Abria a mente. E descobria o encoberto. Descobria as malvadezas se, involuntária ou não, daqueles que ele pensava que o amava. O mar de transeuntes passava por ele como se não o vissem. Passavam feitas ondas de vozes, sons, inaudíveis, carnes sacolejando suas obscenidades provocando-o. No longe, conturbada a visão parecia que todos eram uma só pessoa. Como demorava em chegar!!! Porra! Não tinham marcado em frente à Gazeta? As precisamente vinte horas em ponto? E onde estava ela que não aparecia? Queria ir embora. Não podia. Dera sua palavra. Vou esperar, sim, disse ele diante da insistência dela.
Vou esperar, sim, maldita a hora em que dissera isso. Promessa tem que ser cumprida, apesar de que não era bem uma promessa, dera sua palavra e agora tinha que mantê-la, é isso. Se houvesse um motivo que anulasse tudo, que impedisse dele estar esperando-a. Mas não, nada impedirá de acionar uma trava fazendo com que a máquina parasse. Nada! Nada!

Seus olhos cansados pela impaciência viam em cada transeunte a figura de Raquel. Na apaixonada querência de que ela chegasse logo, via numa japonesa a figura da mulher, pudesse ser alemã, mulata, negra, o que fosse o coração exultava, não de alegria, e sim, de que a espera estava no fim. Ledo engano, a vista turva confundia as aparências. Então, forçava a mente a lembrar com que roupa ela sairá de manhã. Não conseguia. Vinham-lhe todos os tipos de roupas, blusa, saia, vestido, calça jeans, sapato, sandália, e nada de acertar. E o cabelo? É mesmo! E cabelo? Ah! Era difícil, pois todos os dias ela se transformava, mudava o penteado de tal maneira que não tinha certeza se era a Raquel que conhecia.
Enervado, andando de um lado para outro, subira e descera varias vezes as escadas da Gazeta, indeciso não sabia o que fazer. Continuar esperando? Sim, claro, dissera que a esperaria. Mas droga, cadê a consciência dela em deixar ele plantado na Paulista como um idiota sem noção de que atitude tomar. Nisso resolveu andar um pouco mais, isto é, ir até a esquina. Qual não foi a sua surpresa ao vê-la conversando com a Rute. Ao vê-lo Raquel se despediu rapidamente da amiga e se aproximou dele.
Estavam a um bom tempo caminhando lado a lado sem pronunciar uma palavra um para o outro. Em determinado momento, Raquel fez menção em pegar a mão de Renato. Mas este recuou, não deixou. Nada disse, continuou quieta, pensando. Se ele estivesse com bronca ou raiva, deveria se explodir, gritar, assim se sentiria melhor. O silêncio torturava. Por outro lado não daria a oportunidade de ser a primeira a falar. Se ele quisesse que fosse o primeiro e não eu, disse para sim. Renato não encontrava as palavras necessárias que diriam tudo o que estava querendo dizer. A mente criava um vazio que remoia deixando-o numa passividade aterradora. Rute se aproximara de Raquel, como dissera, por amizade apenas. O que ela e nem Raquel percebiam que essa amizade se interpunha entre ele e Raquel e, que Raquel por sua vez, demonstrava não se importar com os sentimentos de Renato.  
Por fim, entre os dentes, conseguiu articular frase a qual, foi preciso Raquel prestar atenção. Já não lhe disse o que eu penso de Rute? Já não lhe disse que essa menina ou mulher, seja lá o que ela for não é boa companhia? Ah! Quer dizer que está com ciúmes dela? Retrucou Raquel pondo um pouco de ironia na fala. Ciúmes? Ah quem dera eu ter ciúmes, se eu tivesse lhe diria. Você já estaria morta, já teria assassinado você e mais ela. Raquel se assustou com a veemência com que ele empregou na voz. Pensou em recuar, mas decidiu avançar no ataque. E por que não? Claro que está com ciúme e, de uma mulher, está me chamando de lésbica? Renato crispou as mãos enfiando a unha na palma para não desferir um soco. Não me importo o que você faz ou deixa de fazer, só sei que depois que você conheceu essa menina, você é outra, não é a que eu conhecia. Quase que ela expressou em voz alta. Meu caro é amor, isso é amor, mas preferiu ficar calada, idiota como ele era, compreenderia erroneamente.

Foi então que Renato compreendeu. Tudo não estava mais existindo, tudo agora era outra coisa, havia em seu peito sentimentos outros que faria com que caminhassem caminhos ainda não caminhados. Surpreendeu-se. Não se sentia frustrado, desanimado e muito menos magoado, o que viu foi uma estrada comprida, não larga, com grandes árvores costeando as margens para que ele pudesse ter sombra suficiente na sua nova caminhada.
Sorriu alegre, não se preocupou em dar adeus para Raquel, sabia que ela estava compreendendo o que ele compreendia agora. Assim se pós a caminhar na nova estrada sem olhar uma única vez para trás,

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...