Souza estava no cargo mais ou menos dez anos. E na mesma delegacia. Não era um
cara violento, a não ser quando precisava, em ocasiões difíceis. Sendo alto,
ombros largos, pesando uns oitenta quilos, um rosto quadrado tipo Mat Dillon,
achava-se até bonito. Tinha um conhecimento e cultura acima da média, recostado
na cadeira, saboreava o charuto preferido e, imaginava o que poderia fazer para
melhorar a vida. Em matéria de literatura, lia apenas à policial, cujo
personagem Sam Spade, de Dashiel Hammett era o seu preferido.
Sua visão de vida era que o homem é homem e
mulher é mulher, qualquer tipo de desvio tinha que ser eliminado, chegando ao
ponto de uma irracionalidade preconceituosa até. Por causa da função de
delegado, em alguns momentos, sentia-se preso sem poder aplicar o que achava
certo. O que o deixava enfurecido. Dizia que nada mais o impressionava. Já
tinha visto Deus e o Diabo na terra do sol. Aturava a mulher de longe, não
suportava a falta de qualidades domésticas que admirava em outras mulheres.
Tinha um relacionamento meio que conturbado com o filho, pouco se falando um
com o outro. A vida é o que ela é e, nada se podia fazer, tem que aceitá-la,
era o seu lema. Exigia dos subordinados pontualidade e fidelidade. Se for
preciso, para manter, o que dizia ser sua teoria, matar, ele mataria. Ocasião
que por duas vezes teve oportunidade.
Uma das coisas que gostava de fazer era dar um role pela Paulista. Um passeio
despreocupado, uma caminhada observando as pessoas, os movimentos dos carros,
os entra e sai dos bancos, bares e lojas. Conhecia a Avenida muito bem, fazia
questão de, mesmo que fosse um Olá, ou um Bom dia, conversar com os donos dos
bares, lojas, cinema, com os moradores de rua, os camelôs; às vezes mandava dar
uma corrida nos camelôs, apenas para mostrar serviço, como dizia. Já fora
acusado de fazer uma pequena máfia, de ter aceitado subornos, de fazer vista
grossa referente à questão dos camelôs. Nada disso era verdade, já recebera
suborno sim, mas de altas autoridades do governo, de deputados e até de
senadores, mas nunca dos pobres coitados dos camelôs. Sabia que alguns tinham
condições de viverem, de trabalharem condignamente, e se estavam ali com suas
bancas ou barrancas por não gostarem de trabalho. O que ele nada podia fazer.
Isso era assunto da prefeitura e seus corruptos fiscais.
Fechou os olhos tragando a última baforada do
gostoso charuto. Nisso, mostrando a angústia apavorada no rosto claro, de
óculos com aro de tartaruga, esbaforido, entrou na sala Nando metralhando com
palavras desconjuntadas por causa do ar preso em seus pulmões.
- Delegado! Delegado!
- Diga estafermo, o que houve?
- Delegado. Houve um acidente na Paulista...
- E eu com isso, não é minha jurisdição.
- Sei delegado. Sei. Mas o senhor precisa ir
ver.
- E porque deverei ir ver?
- É que seu filho está envolvido.
- O quê?
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