sexta-feira, 15 de abril de 2022

O delegado.


Souza estava no cargo mais ou menos dez anos. E na mesma delegacia. Não era um cara violento, a não ser quando precisava, em ocasiões difíceis. Sendo alto, ombros largos, pesando uns oitenta quilos, um rosto quadrado tipo Mat Dillon, achava-se até bonito. Tinha um conhecimento e cultura acima da média, recostado na cadeira, saboreava o charuto preferido e, imaginava o que poderia fazer para melhorar a vida. Em matéria de literatura, lia apenas à policial, cujo personagem Sam Spade, de Dashiel Hammett era o seu preferido.

Sua visão de vida era que o homem é homem e mulher é mulher, qualquer tipo de desvio tinha que ser eliminado, chegando ao ponto de uma irracionalidade preconceituosa até. Por causa da função de delegado, em alguns momentos, sentia-se preso sem poder aplicar o que achava certo. O que o deixava enfurecido. Dizia que nada mais o impressionava. Já tinha visto Deus e o Diabo na terra do sol. Aturava a mulher de longe, não suportava a falta de qualidades domésticas que admirava em outras mulheres. Tinha um relacionamento meio que conturbado com o filho, pouco se falando um com o outro. A vida é o que ela é e, nada se podia fazer, tem que aceitá-la, era o seu lema. Exigia dos subordinados pontualidade e fidelidade. Se for preciso, para manter, o que dizia ser sua teoria, matar, ele mataria. Ocasião que por duas vezes teve oportunidade.
Uma das coisas que gostava de fazer era dar um role pela Paulista. Um passeio despreocupado, uma caminhada observando as pessoas, os movimentos dos carros, os entra e sai dos bancos, bares e lojas. Conhecia a Avenida muito bem, fazia questão de, mesmo que fosse um Olá, ou um Bom dia, conversar com os donos dos bares, lojas, cinema, com os moradores de rua, os camelôs; às vezes mandava dar uma corrida nos camelôs, apenas para mostrar serviço, como dizia. Já fora acusado de fazer uma pequena máfia, de ter aceitado subornos, de fazer vista grossa referente à questão dos camelôs. Nada disso era verdade, já recebera suborno sim, mas de altas autoridades do governo, de deputados e até de senadores, mas nunca dos pobres coitados dos camelôs. Sabia que alguns tinham condições de viverem, de trabalharem condignamente, e se estavam ali com suas bancas ou barrancas por não gostarem de trabalho. O que ele nada podia fazer. Isso era assunto da prefeitura e seus corruptos fiscais.

Fechou os olhos tragando a última baforada do gostoso charuto. Nisso, mostrando a angústia apavorada no rosto claro, de óculos com aro de tartaruga, esbaforido, entrou na sala Nando metralhando com palavras desconjuntadas por causa do ar preso em seus pulmões.

- Delegado! Delegado!

- Diga estafermo, o que houve?

- Delegado. Houve um acidente na Paulista...

- E eu com isso, não é minha jurisdição.

- Sei delegado. Sei. Mas o senhor precisa ir ver.

- E porque deverei ir ver?

- É que seu filho está envolvido.

- O quê?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...