Um grito sobressaiu na tarde ensolarada, entre buzinas, carros, ônibus,
transeuntes, vozes dispersas e sirenes de ambulância ou de carro de polícia, um
grito de: fui roubada, pega ladrão. A pobre senhora indefesa ficou apalermada
no meio da calçada, bem em frente ao bonito prédio da FIESP. Logo em seguida
passando por ela, um policial sai em perseguição ao ladrão. O que a senhora e
poucos que estavam ao lado dela viram, foi um pivete sair correndo e virar a
esquina sentindo jardins.
O pivete, ágil arrancara a bolsa da distraída
senhora que a levava displicentemente a mão. Vendo aquela facilidade, Zé não
teve dúvidas, como estava ao lado, num safanão arrancou a bolsa ao mesmo tempo
em que empurrava a mulher que, quase caiu por cima das revistas da banca de
jornal. Com muito custo, que para ela pareceu eternidade, se equilibrou e
berrou seu grito de revolta: fui roubada, pega ladrão. Zé ouviu o berro, e
entre dentes disse: a vaca tinha que gritar, que merda.
Zé correndo o mais que podia, por estar dias
sem comer, só com crack na cabeça, prestava atenção nos detalhes dos seus
movimentos. Pegou a Alameda Santos, virou na Alameda Jaú e entrou no Parque
Ten. Siqueira Campos, mais conhecido como Parque do Trianon. Ali entre as
árvores se sentiria seguro. Procurou o lugar menos movimentado, atravessou a
ponte e se enfiou quase no meio do mato. Qual não foi sua decepção ao abrir a
bolsa. Soltou um palavrão: que porra de velha é essa que não anda com dinheiro.
Merreca de trezentos reais. Enfiou o dinheiro no bolso da frente do que poderia
ser chamado de calça. Achou também um cartão de banco envolto por um papel onde
estava escrito, o que deveria ser a senha bancaria. Guardou o cartão e o papel
no bolso de traz da calça. A bolsa e o resto dos pertences jogou na primeira
lixeira que encontrou.
Ao virar a esquerda para atravessar a ponte de
volta, foi agarrado por um policial que foi intimidando. Oh! Pivete, o que
temos aí? Nada seu guarda. Como nada? E o que é aquilo que jogou na lixeira?
Não joguei nada, seu guarda. Vamos ver. Agarrou Zé pelo braço e o arrastou com
ele. Como nada, disse o policial enfiando a mão na lixeira, como nada, o que é
isso? Papel? Hein! O que é? Parece-me uma bolsa, não acha? O energúmeno, o que
você fez? Assaltou alguma senhora ou foi alguma velhinha? Não quer responder,
não é? Então vamos fazer o seguinte: ou você me dá uma parte do que você roubou
ou vai daqui direto para o juizado de menores. O que acha? Só de ouvir falar em
juizado de menores, Zé se aterrorizava. Foram os piores anos de sua vida, assim
sendo, concordou em dividir a grana com o policial.
Filha da puta, disse baixinho assim que o
guarda se distanciou. Ainda bem que ele pegou o cartão bancário da dona.
Procurou um caixa eletrônico de pouco movimento. Enfiou o cartão no local
próprio, digitou a senha, e retirou seiscentos reais, amanhã tiro o resto se a
vaca não bloquear o cartão. Passou numa lanchonete, comeu um suculento lanche
acompanhado de uma gostosa e gelada guaraná. Nisso ouviu que o chamavam. Não
faltava mais nada, não é? Espere onde está indo assim com tanta pressa, disse
Leo. E o que você está fazendo no meu território? Zé ficou calado, esquecera
que a Avenida era demarcada por território, um mendigo não podia agir em
território que não fosse o seu. Esquecera-se disso, mas também não podia perder
a bobeira da velha. Escuta Leo, estou aqui só de passeio. Ah! É prove ou deixe
ver o que tem no bolso. Não tenho nada, disse receando a ação de Leo. Sendo
mais forte e maior, Leo arrancou a força do bolso da calça do Zé os seiscentos
reais. Nossa, trabalhou bem, hein pivete. Toma, fique com cinquenta reais para
não dizer que sou bondoso.
Olhou para a nota amassada em sua mão. O que
dava para fazer com cinquenta reais, perguntou desanimado. Bom dava para fazer
apenas uma coisa, e foi o que fez. Sabia onde o Lombriga ficava, foi a procura
dele. Ao sair do Parque Trianon viu Leo falando com o Policial. Desgraçados,
agora vão dividir a grana dele. Deu meia volta e saiu por outro portão para que
eles não o vissem. Lombriga se assustou com a quantidade de crack que ele
pediu. Não queria vender cinquenta reais. Depois de tanta insistência de Zé,
acabou cedendo. Afinal ele não tinha nada com isso, se o cara queria se matar o
problema não era dele.
Com os cinquenta reais de crack no bolso,
procurou aquele lugar escondido no Parque Trianon. Sentou no chão sujo,
cheirando urina, esperma e encostou as costas na árvore e puxou o cachimbo do
bolso, acendeu o isqueiro, esquentou a pedra e passou a fumar. Instante depois
se sentia livre de tudo e de todos. Depois do policial, do Leo, da fome, dos
cheiros, das andanças, era um levitar acima da vida, acima do seu corpo, livre
dos tormentos e dores, sorriu um sorriso descompromissado num jardim cheio de
flores perfumadas. Sorriu um sorriso eterno.
E assim o encontraram. E assim sua foto foi
estampada em todos os jornais e revistas e, aproveitando o ano de eleição, um
político o usou como plataforma para sua candidatura. E sem que se soubessem,
esse político venceu com uma grande margem de votos.
É a vida, e a vida sempre continuará sendo vida.
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