Não
tenho mais tempo. Disse melancólico. Tempo não tenho mais, repetiu fechando a
porta do guarda-roupa e, assim, escondeu o reflexo do fracasso no espelho
tosco. E para que se preocupar com o tempo? Tivera quarenta e nove anos de
tempo para fazer o que bem quisesse e, agora é que descobriu não ter mais tempo!
É um fracassado mesmo, não é? Até podia ser, no entanto se fossem costurar os
pormenores, as insignificâncias, os passos tortos, trôpegos e, alguns, desviado
do curso normal de suas andanças, um bom estudioso biograficamente falando, o
acusaria de ser interpreto vagabundo escorando-se nas paredes do não visível.
Não
tenho o tempo. O tempo consumível que arrasta carnes e ossos em degradação do
indivíduo. Tamanha preocupação fazia com que lutasse contra o temor da solidão.
Mesmo saciada a carne, mesmo que os beijos não mais se prolongassem em tamanho
e muito menos em intensidade, a solidão era a primazia na lista dos temores.
Não a solidão de se sentir longe da pessoa amada, mas a solidão de se sentir no
vulcão grotesco da humanidade e não ser aceito, não ter a razão solidificado ao
se defrontar com o desprezo. Não temia a solidão, temia o ficar só no meio da
multidão sentindo o peso do desprezo.
Não
tenho mais nada. Nunca teve coisa alguma. Nem a solidão do corpo saudável. Essa
é meramente desprezível no instante que a ânsia de ser saciada consuma os
desejos em quartos escuros e baratos para, depois, constatar a força nos atos
decididos. Força que se esvazia aos primeiros contratempos sociais da natureza
urbana massacrante.
Com
quarenta e nove anos de idade a consistência tornava-se opaca, fluída em
experiências nem sempre proclamada na vitória de se sentir competente. Daqui
mais ou menos dois meses completará cinquenta anos. E daí? O que isso
representa na sua vida? Que conseguiu viver todo esse tempo? Lá vem o tempo de
novo a perturbá-lo. Que está mais experiente, com mais conhecimento? Deve
agradecer pelos fios brancos de cabelos? Agradecer a carne flácida, as
olheiras, rugas, bicos de papagaios, movimentos lentos entorpecendo desejos?
Deverá bater palmas pela falta de apetite sexual?
Há uma
coisa que ele desconhece ou, talvez conheça, mas na sua ignorância intelectual,
não dá a mínima importância. Ele continuará, sabe que continuará mesmo que seja
aos trancos e barrancos. Sabe que esse é o primeiro capítulo do resto da sua
vida. Quem sabe, amanhã haverá mais um capítulo.
* - título
inspirado no disco de Rita Lee, Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas.
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