sexta-feira, 8 de abril de 2022

o primeiro dia do resto da sua vida.*

 

Não tenho mais tempo. Disse melancólico. Tempo não tenho mais, repetiu fechando a porta do guarda-roupa e, assim, escondeu o reflexo do fracasso no espelho tosco. E para que se preocupar com o tempo? Tivera quarenta e nove anos de tempo para fazer o que bem quisesse e, agora é que descobriu não ter mais tempo! É um fracassado mesmo, não é? Até podia ser, no entanto se fossem costurar os pormenores, as insignificâncias, os passos tortos, trôpegos e, alguns, desviado do curso normal de suas andanças, um bom estudioso biograficamente falando, o acusaria de ser interpreto vagabundo escorando-se nas paredes do não visível.

Não tenho o tempo. O tempo consumível que arrasta carnes e ossos em degradação do indivíduo. Tamanha preocupação fazia com que lutasse contra o temor da solidão. Mesmo saciada a carne, mesmo que os beijos não mais se prolongassem em tamanho e muito menos em intensidade, a solidão era a primazia na lista dos temores. Não a solidão de se sentir longe da pessoa amada, mas a solidão de se sentir no vulcão grotesco da humanidade e não ser aceito, não ter a razão solidificado ao se defrontar com o desprezo. Não temia a solidão, temia o ficar só no meio da multidão sentindo o peso do desprezo.

Não tenho mais nada. Nunca teve coisa alguma. Nem a solidão do corpo saudável. Essa é meramente desprezível no instante que a ânsia de ser saciada consuma os desejos em quartos escuros e baratos para, depois, constatar a força nos atos decididos. Força que se esvazia aos primeiros contratempos sociais da natureza urbana massacrante.

Com quarenta e nove anos de idade a consistência tornava-se opaca, fluída em experiências nem sempre proclamada na vitória de se sentir competente. Daqui mais ou menos dois meses completará cinquenta anos. E daí? O que isso representa na sua vida? Que conseguiu viver todo esse tempo? Lá vem o tempo de novo a perturbá-lo. Que está mais experiente, com mais conhecimento? Deve agradecer pelos fios brancos de cabelos? Agradecer a carne flácida, as olheiras, rugas, bicos de papagaios, movimentos lentos entorpecendo desejos? Deverá bater palmas pela falta de apetite sexual?

Há uma coisa que ele desconhece ou, talvez conheça, mas na sua ignorância intelectual, não dá a mínima importância. Ele continuará, sabe que continuará mesmo que seja aos trancos e barrancos. Sabe que esse é o primeiro capítulo do resto da sua vida. Quem sabe, amanhã haverá mais um capítulo.


*   - título inspirado no disco de Rita Lee, Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas.

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