quinta-feira, 7 de abril de 2022

o segundo dia do resto da sua vida

 

Era estranho. Quer dizer, se achava estranho ao descobrir desconhecer sua ignorância intelectual. Tal descoberta se deu ao fato de que não tinha perspectiva de que viveria ou não as futuras manhãs. Não existia proporção nenhuma de se entregar, capenga ou não, lutaria com as forças da razão, mesmo que o coração não se manifestasse muito, lutaria. Rezava para que o coração suplantasse a razão.

Um cansaço ameno se abateu sobre ele. Olhou o horizonte e ouviu a voz da consciência proclamando-o a lutar com todas as suas forças. E lutaria, sabia que lutaria. Não era fraco, mesmo que em certos momentos parecesse fraco, não era. O que notava, era pouca animação para realizar movimentos concretizando-o na cena real da vida. Gostava muito da coxia. Ali ninguém o notava e dali, talvez, podia ajudar mais se estivesse em primeiro plano no palco. Sem bem que, em momentos, a depressão era mais aguda, ansiava pelo primeiro plano, desejava o lugar do ator principal. Sabia da impossibilidade de estar à frente do que quer que fosse. Não fora designado a essa função. Mesmo estando na coxia, atrás do palco, sentia-se impotente, sem o que fazer, sem tomar iniciativa. Chegou à conclusão, se fazia o que fazia era porque possuía fraca determinação e não ter consistência nos atos e não ser persistente nos projetos sempre proposto e nunca terminado.

Seguia o curso normal das coisas como se as coisas não lhe pertencessem, como se elas estivessem ali para lembrar o que fora ou que era. Apenas indivíduo se arrastando no mosaico de pedras frias em busca de algo sem resposta. O pior é que não sabia o que seria esse algo. Talvez a estúpida felicidade de vida sem problemas, sem consistência como a maioria dos burgueses insípidos buscam. Talvez a incongruência de ser amado na pele de outros sem se importarem com ele, sem lhe darem atenção. Mas quanto a isso, havia uma parcela despudorada de culpa, pois vivia alheio ao que se passava a sua volta, parcela que não desprezava, mas que não conseguia se desvencilhar dela. Sua comunicabilidade não chegava aos padrões falsos os quais estava acostumado a ouvir. Não chegava...

Nada o atormentava. Nem mesmo a idade que avançava entre os meandros da dúvida e angústia. O jato notara, não era o mesmo de vinte ou mesmo de dez anos atrás. Antes era um jato nervoso, irritante no barulho contra a porcelana do vaso parecendo arrebentá-la. Hoje, parecia mais um fino intrigante escorrer de goteira ensurdecedora sem vitalidade. O prognóstico médico não o deixou preocupado, no entanto não poderia se descuidar. Estava com a próstata um pouco inchada, com uns comprimidos ingeridos um por dia, não faria com que voltasse ao normal, mas evitaria o aumento de tamanho. Afinal, estava entrando na chamada e vulgar terceira idade.

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