terça-feira, 5 de abril de 2022

o quarto dia do resto da sua vida


Sobrevivia. Até mais do que esperava. O que não era motivo para satisfação. A morte é solução, gritou a silenciosa carne. A morte! Sussurrou por entre os dentes.  Não, ainda não. Escrever precisava escrever, podia até se dizer com urgência. No entanto os olhos finos de sobrancelhas grossas e inquietas fitavam o branco do papel eletrônico contemplando o vazio de ser apenas um digitador. Digitador de palavras tão somente. Palavras que se fixam no branco como sangue escorrendo o vermelhão invisível. Sangue marcando a carne de sentimentos inexpressivos.

Deslizou os dedos nas curvas das letras. Escutou as palavras, e ao mesmo tempo se deixou levar, se deixou simplesmente porque não tinha como controlar a pulsão em escrever, e talvez, nem chance tivesse. Vivia os instantes em chances emoldurando os limites dos passos carregados na emoção de viver. E camuflava gestos positivos embalsamados na timidez. Corria contra algo inusitado, algo que aflorava além dele, algo despercebido do que era e porque deveria ser assim. Aliás, não perguntava mais como deve ou deveria ser principalmente como deveria ser. Pouco importava agora com os modos sociais, morais e intelectuais. Queria apenas viver.

Preso ao chão dos costumes enraizados lutaria. Assim deveria ser. Não tendo luta não tem sonho realizado. Sempre teve dificuldade de se expressar. Nem sempre tinha o melhor dia. Sobrevivia lentamente no gosto dos movimentos cadenciados dos pés. Em linha reta procurava desviar da poluição sonora. Não conseguia. Vozes feriam surdamente os ouvidos. Postava-se despreocupado diante de insolúveis questões.

 No entanto, Daniel continuava perdido. Melhor dizendo. Estava perdido. Não sabia o que fazer. E como fazer. Pois deixava lentamente o emprego, fora convidado e, diante de um convite não podia recusar. Sendo assim, a partir de uns dias ainda, pararia de trabalhar e passaria a fazer nada. Isso o deixava assustado. Como de uma hora para outra seria obrigado a nada fazer? Não precisaria mais levantar cedo, pegar condução, metrô, ônibus, aguentar horário, andar dentro de leis desconhecidas, leis que não procurava entender. Como seria daqui para frente?  Chegou a conclusão que não deveria se preocupar, deixar correr as emoções, deixar que o coração vença a razão e tirar o maior proveito da vagabundagem. Não foi o que o presidente disse que, aposentados são todos vagabundos?

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