Sobrevivia.
Até mais do que esperava. O que não era motivo para satisfação. A morte é
solução, gritou a silenciosa carne. A morte! Sussurrou por entre os dentes.
Não, ainda não. Escrever precisava escrever, podia até se dizer com
urgência. No entanto os olhos finos de sobrancelhas grossas e inquietas fitavam
o branco do papel eletrônico contemplando o vazio de ser apenas um digitador.
Digitador de palavras tão somente. Palavras que se fixam no branco como sangue
escorrendo o vermelhão invisível. Sangue marcando a carne de sentimentos
inexpressivos.
Deslizou
os dedos nas curvas das letras. Escutou as palavras, e ao mesmo tempo se deixou
levar, se deixou simplesmente porque não tinha como controlar a pulsão em
escrever, e talvez, nem chance tivesse. Vivia os instantes em chances
emoldurando os limites dos passos carregados na emoção de viver. E camuflava gestos
positivos embalsamados na timidez. Corria contra algo inusitado, algo que
aflorava além dele, algo despercebido do que era e porque deveria ser assim.
Aliás, não perguntava mais como deve ou deveria ser principalmente como deveria
ser. Pouco importava agora com os modos sociais, morais e intelectuais. Queria
apenas viver.
Preso
ao chão dos costumes enraizados lutaria. Assim deveria ser. Não tendo luta não
tem sonho realizado. Sempre teve dificuldade de se expressar. Nem sempre tinha
o melhor dia. Sobrevivia lentamente no gosto dos movimentos cadenciados dos
pés. Em linha reta procurava desviar da poluição sonora. Não conseguia. Vozes
feriam surdamente os ouvidos. Postava-se despreocupado diante de insolúveis
questões.
No entanto, Daniel continuava perdido. Melhor dizendo. Estava perdido. Não sabia o que fazer. E como fazer. Pois deixava lentamente o emprego, fora convidado e, diante de um convite não podia recusar. Sendo assim, a partir de uns dias ainda, pararia de trabalhar e passaria a fazer nada. Isso o deixava assustado. Como de uma hora para outra seria obrigado a nada fazer? Não precisaria mais levantar cedo, pegar condução, metrô, ônibus, aguentar horário, andar dentro de leis desconhecidas, leis que não procurava entender. Como seria daqui para frente? Chegou a conclusão que não deveria se preocupar, deixar correr as emoções, deixar que o coração vença a razão e tirar o maior proveito da vagabundagem. Não foi o que o presidente disse que, aposentados são todos vagabundos?
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