quarta-feira, 6 de abril de 2022

o terceiro dia do resto da sua vida

   

                Copie você mesmo – é o único meio de viver.

                                                                       Clarice Lispector.

 

Daniel nome que lhe vinha sempre à mente. Por que Daniel cansou de perguntar. Não se lembrava de nenhum Daniel importante... Ah! Sim, se lembrou de um: Daniel, na cova dos leões. Hebraico. Deus é meu juiz. Anjo da guarda. Pessoa atenciosa, ligado à família, de senso maternal, gosta de se sentir importante, mas nem sempre convincente, útil e necessário e de responsabilidades que não dá conta de si. Traz na palavra uma só verdade e não é de voltar atrás. Sempre ocupado, fazendo algo sem ter uma hora livre para o lazer. O perigo é se tornar dependente e infantil, sempre pendurado nos outros. Este é o Daniel, esse sou eu, o Dan, ou Dani, poucas pessoas o chamavam pelo nome: Daniel Cláudio. Até que o nome tinha um quê de imponente, sorriu: Daniel Cláudio. Enchia a boca, como dizia a mãe. Os amigos, parentes, era Dan ou Dani, nunca Daniel e muito menos Daniel Cláudio.

Fumando preguiçosamente, com os músculos soltos na cadeira de balanço, se encasquetava ao pensar de onde tiraram esse nome: Daniel Cláudio. O Daniel tinha a certeza de que fora do romance O LUSTRE, de Clarice Lispector, romance que sua mãe vivia lendo e relendo. Mas o Cláudio? Seria o Marzo, galã de novelas? Por que não Nilson? Jayme? Reinaldo? Ou mesmo Edvaldo, com o d mudo mesmo. Ou César. Talvez Wanderlei ou, Álvaro, Ricardo... O que fazia uma pessoa rotular outra que pouco conhecimento tem da vida? Ainda bem que não colocaram Osvaldo. O vizinho alcoólatra, briguento, batia sempre na mulher e nos filhos, não trabalhava chamava-se Osvaldo. Volta e meia a polícia baixava e levava o malédico para a cadeia onde passava três ou quatro dias preso. Para depois, repetir a dose, às vezes ficava mais tempo na cadeia.

Foi preciso parar com a obsessão em conhecer a origem do nome, saber o porquê seus pais colocaram sem ele pedir, e muito menos, sem perguntar a ele. Daniel Cláudio era repulsivo, não gostava, em suas moléculas existia o desconforto da pessoa Daniel Cláudio. Se a salvação estava em copiar já não sabia em quantas partes seria possível se copiar. E todas às vezes, ao se levantar, tomava ao pé da letra as palavras cruciantes. Era a mola, o impulso ferrenho que o fazia colocar os pés fora da porta. De enfrentar a caterva empurrando-o de um lado para o outro. Vivia de empurrão físico e intelectualmente.

Na solidão da casa o silêncio abrandava o vazio que o oprimia. Sergey Rachmaninoff no seu Concerto n. 3, para piano invadiu a alma dos móveis levando-o a esfera do infinito sabendo-se que, Daniel Cláudio, querendo ou não, sobreviveria, apesar da tempestade.

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