Copie você
mesmo – é o único meio de viver.
Clarice Lispector.
Daniel
nome que lhe vinha sempre à mente. Por que Daniel cansou de perguntar. Não se
lembrava de nenhum Daniel importante... Ah! Sim, se lembrou de um: Daniel, na
cova dos leões. Hebraico. Deus é meu juiz. Anjo da guarda. Pessoa atenciosa,
ligado à família, de senso maternal, gosta de se sentir importante, mas nem
sempre convincente, útil e necessário e de responsabilidades que não dá conta
de si. Traz na palavra uma só verdade e não é de voltar atrás. Sempre ocupado,
fazendo algo sem ter uma hora livre para o lazer. O perigo é se tornar
dependente e infantil, sempre pendurado nos outros. Este é o Daniel, esse sou
eu, o Dan, ou Dani, poucas pessoas o chamavam pelo nome: Daniel Cláudio. Até
que o nome tinha um quê de imponente, sorriu: Daniel Cláudio. Enchia a boca,
como dizia a mãe. Os amigos, parentes, era Dan ou Dani, nunca Daniel e muito
menos Daniel Cláudio.
Fumando
preguiçosamente, com os músculos soltos na cadeira de balanço, se encasquetava
ao pensar de onde tiraram esse nome: Daniel Cláudio. O Daniel tinha a certeza
de que fora do romance O LUSTRE, de Clarice Lispector, romance que sua mãe
vivia lendo e relendo. Mas o Cláudio? Seria o Marzo, galã de novelas? Por que
não Nilson? Jayme? Reinaldo? Ou mesmo Edvaldo, com o d mudo mesmo. Ou César.
Talvez Wanderlei ou, Álvaro, Ricardo... O que fazia uma pessoa rotular outra
que pouco conhecimento tem da vida? Ainda bem que não colocaram Osvaldo. O
vizinho alcoólatra, briguento, batia sempre na mulher e nos filhos, não trabalhava
chamava-se Osvaldo. Volta e meia a polícia baixava e levava o malédico para a
cadeia onde passava três ou quatro dias preso. Para depois, repetir a dose, às
vezes ficava mais tempo na cadeia.
Foi
preciso parar com a obsessão em conhecer a origem do nome, saber o porquê seus
pais colocaram sem ele pedir, e muito menos, sem perguntar a ele. Daniel
Cláudio era repulsivo, não gostava, em suas moléculas existia o desconforto da
pessoa Daniel Cláudio. Se a salvação estava em copiar já não sabia em quantas partes
seria possível se copiar. E todas às vezes, ao se levantar, tomava ao pé da
letra as palavras cruciantes. Era a mola, o impulso ferrenho que o fazia
colocar os pés fora da porta. De enfrentar a caterva empurrando-o de um lado
para o outro. Vivia de empurrão físico e intelectualmente.
Na solidão da casa o silêncio abrandava o vazio que o oprimia. Sergey Rachmaninoff no seu Concerto n. 3, para piano invadiu a alma dos móveis levando-o a esfera do infinito sabendo-se que, Daniel Cláudio, querendo ou não, sobreviveria, apesar da tempestade.
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