segunda-feira, 4 de abril de 2022

O quinto dia do resto da sua vida

 Daniel canalizava o som nas palavras. O som silencioso das palavras onde cada silaba crescia expondo seu sentido. Soava esquisito, sem coerência, desprovida de textualidade. Precisava levar adiante o projeto. Mentalmente esquematizado, jurava a si mesmo cumprir rigorosamente o traçado. Conhecendo-se intimamente sabia que não faria nem a décima parte. Assim mesmo mantinha o projeto elaborado em linhas e cálculos complicadíssimos. Esquemas teorizados em diversas folhas do caderno de anotações despertavam a letargia dos dedos. Numa frenética pressão nas teclas, ideias surgiam ojerizando a preguiça. Por longos minutos, ou por horas pequenas se entregava ao sacrifício da escrita. Desaparecia o ser comum, trabalhador de todos os dias, cumpridor prisioneiro das horas de sobrevivência e, em seu lugar tomava corpo o escritor desconhecido das manhãs ensolaradas de primavera frias.

Ouvia no silencio do corpo as palavras escondidas na fala. Puxando os liames da consciência depurava o sentir em gotas de criatividade. Daniel se impacientava. Não alcançava a clareza necessária. Faltava-lhe a técnica de estilo. Ocasionalmente a crise comandava por longos períodos de palavras obscenas e desnorteadas. Então, ele parava. Fechava o computador. Saia. Punha-se a andar por várias e longas horas até a fadiga dominar seus pés dormentes. A pulsão do cimento da calçada comprimia a sola do sapato impulsionando-o para cima e, para depois, cair decidido de novo sobre o calçamento. Repetia-se a manobra tanto do pé esquerdo como do pé direito. Era pulsão física repercutindo em todo o corpo. Examinava essa pulsão como afronta ao processo negativo tolhendo a criação.

Andava horas e horas. Percorria extensa área com os olhos fitos no horizonte da memória. Fixava cada detalhe e nuanças para depois transformar em texto literário. Nem sempre conseguia bons resultados. A merda da mente não guardava tudo o que via, não guardava tudo o que os olhos diziam. Uma ou outra imagem se fixava na pele do cérebro conduzindo para os dedos a ordem de escreva, escreva, escreva. E obediente ele escrevia, escrevia a ponto de sentir as juntas dos dedos e do pulso doerem sistematicamente obrigando-o a parar.

Olhou o relógio. Estava na hora, não podia chegar mais atrasado. Tomou um rápido banho e saiu batendo a porta do apartamento.

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