domingo, 3 de abril de 2022

o sexto dia do resto da sua vida

 

O sexto dia do resto da sua vida chegava ao término sem que houvesse um sentido, sem que para isso tivesse um sentido. Sabia que um dia menos dia esse fim se aproximaria só que não pensou que fosse com tanta rapidez. Tudo fizera para não notar sua aproximação, tudo fizera para retardar o tempo. Quem sabe se no sétimo dia descansaria? Se o Criador descansou no sétimo dia porque ele não poderia também? Não, ele sabe que não é Deus e, muito menos está se igualando a Ele, e também não está sendo blasfemo, não precisa levar a sério o que se diz. Não é mesmo? Além do que a seriedade embrutece o organismo, os poros da audição e os sentidos da sobrevivência.

Daniel sem saber tinha ojeriza a comparações. Sua repulsa ultrapassava certos limites que, quem estivesse por perto, se sentiria ofendido. O que causava vexame tanto a ele como a pessoa que se sentia ofendido. E para explicar, para fazer entender que essa atitude é uma falha sua, que ele nem percebia, era um trabalho! Quase sempre perdia amigos que não voltavam mais. Controlava-se o máximo possível, se desgastava emocionalmente, triturava-se ao notar o que fizera. Não compreendiam que era falha das suas células, do seu interior, que não havia nada de maldoso e muito menos intencional. Angustiava-se por longos e compridos dias. Era lhe custoso voltar ao normal.

Quando saia da depressão, quando voltava ao normal, procurava o amigo ofendido e explanava todo o processo que o fizera agir de tal maneira. Colocava-se a nu, se expunha perigosamente aos olhos maldosos que poucos entendiam ou, procuravam não entender. Alguns, tempos depois, tiravam proveito disso, azucrinando-o na intenção de recolher algum benefício, tanto material como físico e espiritual. Era-lhe repulsivo essas atitudes, enojava-lhe a carne intima num processo desgostoso a ponto de não querer ver mais a pessoa. A principio, por não ter a sensibilidade em saber quem era amigo ou não, sofria amargamente. Porém, com suscetibilidade, com a perspicaz adquirida, separava os que eram dos que não eram amigos.    

Daniel construía sua proteção dos perigos iminentes que a vida vinha lhe propondo enfrentar. Sabia-se preparado para enfrentar o inimigo, apenas não tinha noção ou, nunca terá noção, de que tipo, de que tamanho era esse inimigo.

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