... as
perturbações esgarçam objetos e aprisiona a vontade de expressar a vulgaridade
nos passos concretos nosso de cada dia. Há uma expressão ingênua que desfigura
a face do sentimento engasgado na garganta muda do grito. Raquel desfila a
sinuosa feminilidade alfinetando olhos parvos iludidos nos contornos do prazer
oneroso. No ralo do banheiro, solitários, morrem vidas sem a primazia de
sentirem o calor do sol. Raquel pouco se dá do que pensam ou do modo
vertiginoso de viver o que acha deve ser a vida. Praticando a ingenuidade para
ter progresso físico e financeiro no meio da turma aparvalhada com sua
tagarelice, conquistava seu lugar sem sacrifício nenhum. Não questionava os
porquês disto ou daquilo, sua intelectualidade não lhe permitia argumentações
profundas. Para ela o que importava eram as ações, o fruto de suas ações em
cima dos desavisados e grotescos conquistadores. Descobriu que poderia fazer
com o corpo seu futuro, talvez financeiro, não sabia ainda, ou sua dependência
social ou moral, desligando-se dos atributos familiares. Foi num dia chuvoso,
não tinha como precisar com exatidão, lembrava-se da chuva e de macarrão. O que
indicava ter sido num domingo. Até poderia ser, relembrou mais tarde.
Estavam almoçando quando uma leve batida se fez ouvir na porta da sala. O
pai irritado abriu a porta e a sua frente surgiu um rapaz alto, magro, jaqueta
jeans, cabelos pretos compridos, barba por fazer, mascando chiclete, olhos
arredondados escuros, castanhos, numa voz meio gutural de adolescente passando
para adulto, perguntou: - Raquel? Sem dar tempo de responder, Raquel passou
pelo pai, enfiou o braço no braço do rapaz e saiu sem dizer nada. Nem bem tinha
chegado ao portão quando a voz do pai
trovejou mais alto do que a mais das horríveis tempestades: - Se você sair
agora não volte mais, e bateu a porta sem dar tempo para Raquel responder.
Raquel se voltou, olhou a porta fechada sabendo que naquela casa estava toda a
burguesia moral e ridícula de vidas gastas simplesmente em cumprir suas
obrigações mecanicamente. Parada, olhando a casa, estrutura unilateral de vidas
ridículas sem projeção além do que tinha que fazer no dia a dia. Raquel lançou
no ar um suspiro, balançou os ombros, subiu na moto do namorado e, disse
mentalmente: - Adeus vida burguesa ridícula que nada me dará...
Por que admirar as ações dos outros? Por que se espantar ou ter ciúmes do que acontece com os outros? Por que ter raiva do que acontece com ela? Por que a vida é tão corriqueira a ponto de não conseguir, o que afinal? Não sabia. E precisava saber? Se ela soubesse a vida estaria desequilibrada, destruída, não haveria mais nada a descobrir. Talvez seja ela esta desequilibrada ou destruída. Talvez. Olhou para o companheiro deitado ao seu lado dormindo um sono profundo. Ternura desprendeu dos olhos e envolveu o corpo nu do amante. Ternura! Termo banal, sem expressividade, carregado de uma pitada de ridículo. Precisava ir além de ternura, campear outros termos mais condizentes com o que sentia por ele e, querendo ou não, capturar o que ele sentia por ela. Só assim estariam ambos integrados um ao outro, e quem sabe, seriam um em ambos ou ambos num só sem que nada o separasse. Raquel abraçou o amante aquecendo-se na pele ardente do momento.
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