quarta-feira, 18 de maio de 2022

Diário da quinta-feira.


Acordou às três horas da madrugada. Excitado falicamente, despejou todo o desejo na porcelana branca do vaso sanitário. Olhou-se no espelho pequeno onde todos os dias fazia a barba. Não se reconhecia mais. Notava nuanças pútridas que só podia designar como presença do Cão, do Sete Peles exigindo sua contribuição. Esgotado, sabia não estar mais contribuindo para o Dito Cujo viver suas artimanhas comandando-o desbragadamente. Ele se drogava tudo bem, mas não era o suficiente, pelos menos é o que lhe parecia. Afinal, o Destemido exigia cada vez mais sua participação, sugava dele o que ele às vezes não tinha. Esfolado, percorria a via cruzes da carne dilacerada de fome e frio.
Eram exatamente três horas. Lenda ou fábula que pouco lhe importava, o que também, pouco procurou tomar conhecimento, se entregava numa volúpia absurda expurgando o ódio em ser obrigado a obedecer.  Dane-se o mundo, não sou Raimundo, disse sem saber ao certo se acreditava ou não em toda essa baboseira.
Olhou-se novamente no espelho. Perguntou:

- O que faço da minha vida?

Naquele momento nada, apenas reviu-se andando rente a parede sujas dos prédios cinzentos, onde grupos de pessoas se entregavam sexualmente aos prazeres num aglomerado de turminhas escolares e trabalhadores, num divertimento que sonoro assanhava a excitação. Foi então que percebeu o que restou dele, foi apenas um pobre coitado deitado no solo podre da humanidade que o pisava sem constrangimento e piedade.

Pastorelli / Jean Marcelo Alzair

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...