Acordou às três horas da madrugada. Excitado falicamente, despejou todo o
desejo na porcelana branca do vaso sanitário. Olhou-se no espelho pequeno onde
todos os dias fazia a barba. Não se reconhecia mais. Notava nuanças pútridas
que só podia designar como presença do Cão, do Sete Peles exigindo sua
contribuição. Esgotado, sabia não estar mais contribuindo para o Dito Cujo
viver suas artimanhas comandando-o desbragadamente. Ele se drogava tudo bem,
mas não era o suficiente, pelos menos é o que lhe parecia. Afinal, o Destemido
exigia cada vez mais sua participação, sugava dele o que ele às vezes não
tinha. Esfolado, percorria a via cruzes da carne dilacerada de fome e frio.
Eram exatamente três horas. Lenda ou fábula que pouco lhe importava, o que
também, pouco procurou tomar conhecimento, se entregava numa volúpia absurda
expurgando o ódio em ser obrigado a obedecer. Dane-se o mundo, não sou
Raimundo, disse sem saber ao certo se acreditava ou não em toda essa baboseira.
Olhou-se novamente no espelho. Perguntou:
- O que faço da minha vida?
Naquele momento nada, apenas reviu-se andando
rente a parede sujas dos prédios cinzentos, onde grupos de pessoas se
entregavam sexualmente aos prazeres num aglomerado de turminhas escolares e
trabalhadores, num divertimento que sonoro assanhava a excitação. Foi então que
percebeu o que restou dele, foi apenas um pobre coitado deitado no solo podre
da humanidade que o pisava sem constrangimento e piedade.
Pastorelli / Jean Marcelo Alzair
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