Foi algo não imaginado.
Surpreendeu-se, claro que se surpreendeu, mesmo que preparado estivesse não
poderia evitar a surpresa. E ele não tinha se preparado. Quando diziam que se
preparasse para os imprevistos, não ouvia, desprezava conselhos.
“O
prevenido vale por dois” – dizia sua mãe.
Nunca
deu ouvido, saia sempre sem guarda-chuva. E ela retrucava quando voltava
molhado.
“Bem
feito, não recomendei para levar guarda-chuva, conselho de mãe não se
despreza.”
É,
dava razão agora, mesmo assim não gostava de conselhos. Sabia que desde o
nascimento o ser humano está preparado para colher o seu destino, fizesse o que
fizesse. Destino! Outra coisa que não acreditava muito, não. Se o destino dele
é ser feliz, por que deveria labutar para conseguir a felicidade? Se ficasse
imóvel parado, não seria feliz? Não, não seria, é preciso fazer para ser, lhe
diziam os filósofos da vida. Quer dizer que o seu destino é esse: fazer para
ser?
Todas
essas questões lhe vieram à mente ao deparar com o inusitado, com o não
imaginado, o tal do imprevisto.
“Não
levou o guarda-chuva, bem feito.” – pareceu ouvir a voz da mãe.
E foi um soco no estômago, não foi um
soco, foi uma explosão atômica. Não
contava com isso. Relutou sem saber como dar prosseguimento. Tentou desviar,
tentou pela razão, tentou pelo conhecimento, tentou pelo coração, nada
adiantou, não tinha como fugir e, como lutador que sempre pensou que fosse,
enfrentou com o espírito elevado, enfrentou.
Assim
que abriu a página, assim que seus olhos castanhos claros puxados para o verde
depararam na imensidão do branco do papel, decidiu-se finalmente. Pegou da
borracha e apagou aquele infernal ponto preto, enorme bem no meio da página.
A
partir desse momento, conseguiu escrever, conseguiu expressar os sentimentos
aglomerados em seu peito.
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