Encolhido no cobertor sujo de suores fétidos dormia sossegado em pleno meio dia
ensolarado com uma temperatura baixa fazendo-o se enrolar mais ainda no pano
sujo. Depois de muito andar encontrara aquele cantinho que o protegia do vento.
Nisso sentiu um pé cutucando-o incessantemente. Precisava dormir enganar a fome
que comia suas entranhas. Quantos dias estava sem comer? Não tinha noção, não
sabia. O frio penetrava entre as fibras do cobertor nauseabundo ferindo a carne
magra. Virou o corpo tentando fugir do pé cutucando-o. Não adiantou, o maldito
continuava. Merda! Não há sossego nesta terra de cimento e lágrimas!
Enfiou a cabeça debaixo do cobertor expondo o nariz ao fedorento cheiro de
urina. Caralho será que não entendem que precisava somente dormir! Por que não
me esquecem neste canto da vida emparedado na fria realidade da carne nua.
- Ei! Cara vai ficar muito tempo deitado nesse frio?
Não
distinguiu o som que parecia vinha de longe de lugares estranhos.
- Ahn! Que foi? – perguntou arrastando a voz pelo sono do álcool.
Apertando o olho com uma das mãos, viu a sua frente o segurança, sujeito
grande, corpulento, terno preto, óculos escuros, voz forte mandona.
- O vagabundo, vai levantar daí. Chispa, aqui não é lugar para mendigo, não!
Enquanto
falava cutucava violentamente o pobre do homem que, levantando devagar, pois
não tinha pressa, pegou os seus preciosos trapos. Olhou feio para o segurança
que apenas cumpria ordem. Sabia disso, como sabia que o segurança estava vexado
por estar fazendo o que, talvez, não quisesse fazer. Sentia olhos que
observavam e retrucavam o seu procedimento. Realmente não queria. Ao receber a
ordem, quis recusar, mas pensou: se eu for demitido? Como arrumar outro emprego
e, até posso acabar como esse aí, e isso não queria, tinha mulher e filhos para
sustentar. Portanto teve que executar a ordem e, também, ali não era lugar para
vagabundo nenhum dormir. Paciente, esperou o mendigo pegar suas coisas, sob os
olhares dos transeuntes curiosos. Assim que o pobre coitado recolheu seus
poucos pertences, calmamente trôpego se pôs a caminhar. O segurança concluiu
que fora melhor assim. Já estava se dirigindo ao prédio quanto o mendigo
gritou:
- Oh, meu, escuta, desejo que você seja feliz, - e lançou um sorriso de luz ao
segurança.
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