Uma das coisas que notava de diferente da capital com o interior, era talvez o
vento, era o que pensava sobre a mãe. A dança do vento, como dizia. Ela
não via perigo no raio, na chuva, no vento, no frio ou no calor. Fazia com que,
as crianças, aceitassem a voz da natureza como um fato único e belo, como algo
que se vê pela única vez, como sendo inesquecível, para ser lembrando sempre.
- Ah! Mas todo o ano chove, dizíamos.
-
Todo ano faz frio.
-
Venta quase todos os dias.
Minha
mãe respondia calmamente:
-
Sim, todos os anos faz frio, todo ano chove, todos os dias venta, mas se
repararem não são sempre iguais. Escutem com os olhos os volteios das coisas.
Sinta na pele o arrepio do frio ou do calor. Quando vocês tiverem essa
capacidade verão a diferença, notarão que nem tudo é igual. Observe a dança das
folhas, a dança ao vento que elas fazem. Vejam que uma vai para um lado, a
outra a segue, uma terceira cai tudo isso. Notem a coreografia do vento
levantando os grãos da areia da estrada, ou o arrepio das árvores se inclinando
sob o seu comando.
Nascida,
criada em fazenda, partilhando do contato da natureza até a fase adulta quando
precisou se mudar para a cidade após o casamento e, logo depois, sendo levada
para a capital, nunca demonstrou desgosto ou que estivesse sofrendo com a
mudança.
Anos depois, quando estava com seus vinte e poucos anos, esperando que um
temporal passasse para sair, olhando o vento carregando papéis, seixos de
restos humanos no asfalto, levantando uma poeira cinza, lembrou da dança ao
vento. Virando-se para a mãe que ao lado dele também observava a tempestade,
perguntou:
- Então, mãe, depois de todos esses anos a senhora ainda acredita
na
dança ao vento das folhas?
A
mãe com seus olhos verdes, pequena ao lado dele, respondeu melancolicamente
firme:
-
Nunca devemos desacreditar daquilo que amamos.
-
Mas a senhora ainda percebe ou nota diferença na dança ao vento, como dizia para
nós quando criança.
-
O que você acha meu filho?
-
Não sei, mãe. Penso que sim.
-
Se você pensa assim, assim é. – respondeu.
Dessa
maneira, nunca ficou sabendo se a mãe ainda trazia dentro de si aquela poesia
de antigamente que encantava a ele e aos primos. Mas será que foi a mãe que
mudou ou ele que não percebeu a mudança que se processara nele, transformando-o
no que era hoje.
E,
parado na calçada esperando o semáforo abrir, com as mãos nos bolsos por causa
do frio, reparou no vento ao levantar um pouco de poeira onde a calçada estava
sendo reformada. Ficou observando os volteios da terra suja, e certificou-se
que fora ele que se transformara, mas ainda trazia dentro de si um pouco do
calor poético que mãe transmitiu a ele.
Uma
onda nostálgica invadiu seu coração e, sorridente atravessou a rua satisfeito
com ele e, por que não, com a vida também.
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