quarta-feira, 15 de maio de 2024

Ainda não me rendi ao fretado.

 

Sexta, de manhã os arruaceiros pregoavam a greve do metrô para hoje, segunda.
Distribuíam como sempre, o jornal do metrô onde decretavam a greve. E como sempre, passo por eles sem dar pelota para o que dizem ou que fazem. Às vezes dá vontade gritar:

- Vá trabalhar seu arruaceiro que você ganha mais.

Mas não o faço, não o faço por que não sou louco de arrumar confusão e, sabe-se lá o que poderá me acontecer. Como parte do povão, mas não agindo como o povão, sou medroso, prefiro ficar na minha, o que num certo ponto é errado, e em outro ponto é correto. Uma andorinha só não faz verão, não é assim o velho e proveitoso ditado que ouvimos desde criança?

A meu ver o povão não devia dar pelota para os arruaceiros, mas o povão parece que tem não sei o que, medo de perder o emprego, medo de tudo talvez, e ouvem o que os arruaceiros dizem, pegam o jornal do metrô que mais tarde você verá jogado no chão da plataforma ou atulhando as pequenas e eficientes latas de lixo.

Sendo eu um avoado, levantei-me hoje e nem lembrava dessa particularidade. Levantei-me numa boa, me troquei, escovei os dentes, coloquei comida pro gato, deu um tchau para a filha e sai.

Ao chegar no ponto, que é três passos perto de casa, percebi que não havia era ônibus. O ponto não estava cheio, mas também não estava no seu dia normal.
Enquanto esperava o micro ônibus, que nessa altura já tinha passado dois terrivelmente transbordando de passageiros, ouvi a conversa entre duas mulheres:
- Greve do metrô eu estava esperando, mas de ônibus eu não sabia.

- Também não sabia, respondeu a outra.

E no meu pensamento:

- É eu também não sabia.

O terceiro que passou consegui pegar. Lotado, apinhado de passageiro, ainda bem que era daqueles que descem por traz e não pela frente. No terminal Penha desceu a metade.

O metrô, o terrível metrô estava normal, nada de extraordinário, apenas a aglomeração costumeira para entrar e sair dos trens e, uma garota de cabelo roxo, meio cinza, com roupas pretas, carregando vários livros no braço.

E assim transcorreu mais uma greve do metrô.

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