Contrariado sem saber o porque, abriu a ensebada e velha agenda e
freneticamente começou a escrever. Não pensava no que escrevia, e achou que nem
deveria pensar, se pensasse não escreveria, foi essa sua opinião, depois de
tomar um bom gole de água.
Ao lado do teclado estava o livro de contos de Virginia Woolf, era a sua
leitura ultimamente. Precisava ler Virginia para entender Clarice, lhe dissera
o amigo. O que para ele não tinha uma exclusividade gostava de Clarice e por
causa dela descobriu Woolf, a qual também passara a gostar. E as duas lado a
lado estavam na prateleira refletindo os acasos da vida.
Segurando a caneta com uma certa pressão, sentia as idéias fluíram pelas
linhas pequenas da velha e ensebada agenda. O silêncio imperava em seu interior
apesar da geladeira roncar pelo uso de tempo, o que lhe dava uma sensação de
tempo ocorrido sem perceber.
Constatou com uma certa amargura, que tudo é uma mera questão de futilidade
onde todos os gestos são criados por um milhão de pessoas sem saberem da
qualidade e da importância deles. Que diante das grandes coisas que lhe
aconteciam era porque deveria acontecer, mesmo que a vida seja uma mera
compilação de atos sendo logos
esquecidos.
Estava ali, melhor dizendo, escrevendo, e o saco de bugigangas para serem
doadas ainda permanecia no canto da sala. Ta certo, ocupava um canto quase
desapercebido, mas que de uma certa maneira atrapalhava o olhar. E por que ele
ainda estava ali? Porque ele não foi ainda doado? Porque deixar essa merda de
saco enfeando a sala? Porque? Eram tantos porquês que ele jurou que eliminaria
essa palavra do dicionário.
Ele estava só. Era realmente só? Duvidava, mas suas escolhas foram minadas
por aquele saco. Foram uma a uma. O trabalho realizado até o presente momento,
se perdeu dentro do saco demonstrando o vazio sem méritos ou, mesmo a
costumeira caneta com que vinha escrevendo se perdia em meio ao vazio de si.
Sim, vivera vários amores, desprezara outros, relembrava os que não tivera.
Assim como vê as paixões os amores se perdem na poeira do esquecimento. Para
que o vazio não se instalasse definitivamente nele, lia Virginia vorazmente.
Ela era uma das poucas que realmente o entenderia. Talvez, se tivesse lido “O
Ovo e a Galinha”, cuja complexidade nem mesmo a autora entendera direito, no
entanto a vida é para ser sentida. Sabia que mesmo por essa sua falta não
deixaria de gostar de Clarice. Olhou para as duas enfileiradas na estante.
A vida demora a passar quando se tem horas perdidas em papéis branco e mal
rascunhados.
Continuaria escrevendo, palavras soltas que poderão ter um nexo em seu
sentido onde ainda não encontrou a explicação correta.
Assim voltou o corpo e se entregou ao vazio reconfortante das histórias de
Virginia...
Talvez, estivesse ali a sua vida...
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