sábado, 5 de outubro de 2024

Nascimento.

 

Corria, e como corria! Seus pés chapinhavam no lamaçal, produzindo um som seco e angustiante. De vez em quando, tropeçava, não chegava a cair, pois suas mãos ágeis, apoiavam-se no desespero de ser alcançada pelo espectro tenebroso que a seguia. Com esforço endireitava o corpo e colocava mais agilidade nas pernas quebrando a água em reflexos onde a lua repartia em pequenos brilhos de medo.
 
Corria, e como corria! Corria na medida certa da afobação, lutando aflita em sair do charco sombrio de sua aflição. Seu pai, que nunca tivera medo de nada, lhe ensinara a enfrentar o medo, principalmente o abstrato medo que vem lá de dentro e aterroriza o viver cotidiano. E, ela, enfrentava sim, enfrentava com determinada coragem que seus pés conseguiam levá-la longe do perigo. Não estava fugindo, claro que não, covarde não era, estava sim, tentando ganhar tempo, conseguir aplacar a dor vazia que alimentava seu alucinante sentir-se perseguida pela sombra de algo que não sabia o que era.
 
Precisava de um plano. Assim que conseguisse bolar um plano se colocaria na defensiva e enfrentaria o espectro que a seguia.
 
Tinha a determinação consciente de que ao enfrentar o perigo estaria livre dele. Mas no momento tinha só que correr, correr mesmo que parecesse estar no mesmo lugar. Assim parecia, pois a sua frente erguia-se o brilho da lua fortalecendo as sombras dos pequenos arbustos que, aos seus olhos, pareciam gigantescos monstros a assustá-la.
 
Ela corria, e como corria! Entre os intervalos da respiração, criava uma teoria para acabar com o terror que a invadia. E qual seria essa teoria, perguntou no silencio sombrio da lua prateando a água. Primeiro era preciso saber por que estava correndo insanamente neste charco de lama fedida. Puxando a respiração e dando um pequeno intervalo para que o peito recebesse todo o ar e enchesse o pulmão, questionou a mente em busca de uma resposta.
 
Porque corria, perguntou novamente. E, lá do fundo do poço, o eco da resposta sonorizou seus lábios em palavras que ouviu nitidamente.
 
- Corria para enfrentar o medo simplesmente e viver no nascimento de ser apenas feminina.
 
Era isso? Não, não podia ser. Precisava entender o que lhe acontecia.  Então como justificar o espectro que a seguia? Parou por uns minutos, apoiou as mãos nos joelhos, encostada a uma árvore, chegou à conclusão de que ainda teria que correr muito.
 
Nisso um grito estridente rasgou a noite silenciosa prateada pela luz da lua. Dilacerou sua carne virgem pronta para aceitar o perigo de ser feminina.     
 
Foi então, que uma ternura leve a envolveu num aconchego de paz e compreensão. Não precisava mais ter medo do espectro que a seguia. Olhou para traz. Teve a certeza de que não era mais perseguida. Suspirou aliviada. Sentou no tronco e apoiou as costas na árvore.
 
Nesse instante, uma ternura quente se projetou de dentro dela.
 
Levou a mão entre as coxas e colheu o nascimento adocicado e vermelho da vida, fazendo-a mulher.

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