segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Hollywood não é mais a mesma

  

Nem bem tinha levantado ouviu o miado do gato na porta da cozinha. Não se preocupou. O danado estava é querendo entrar. Tomou café, se vestiu, depois é que foi dar comida, trocar a água e o leite, enquanto o gato se enroscava nas suas pernas. Mesmo assim continuava miando. Queria era entrar na casa e se esparramar bem gostoso no sofá. Não deixou, obrigou que ficasse no quintal. Pegou a mochila a tiracolo e saiu. Na rua o vento batia frio em seu corpo. Um vento úmido gelado. Pensou: deveria ter pegado uma blusa, mas não tinha uma para essas eventualidades. Ficou encostado ao poste desejando que a condução chegasse logo. Não precisou esperar muito, logo chegou o ônibus. Subiu e procurou ficar no fundão onde seria mais provável que alguém levantasse. O que não aconteceu. Foi em pé até o final da linha. Apesar do horário de pico até que foi fácil tomar o metrô. Não deu para abrir o livro e ler como quase sempre fazia. Não ligou, teria muito tempo para ler. No Brás, no meio do empurra-empurra, entrou um cara falando alto, dizendo gracinhas que só a turminha dele achava graça. Fez a baldeação na Sé sem maiores preocupações. Apenas houve uma pequena aglomeração no Paraíso, mas sem maiores conseqüências. Ao sair da estação Consolação, deparou com a beleza do sol meio pálido tentando esquentar os prédios humanos. Tinha saído pelo lado direito da estação, pois precisava passar na farmácia. E ao atravessar a Rua Augusta, olhando para o lado dos jardins, a cena fotográfica que sua mente num flash registrou, deixou-o alegre pela beleza e decepcionado por não estar com a câmara digital. A parte de cima da rua, onde os prédios, por estar mais perto pareciam agigantado, estavam na sombra, enquanto os que estavam ao longe, dando a impressão de pequenos estavam iluminados pelo sol que batia de cima para baixo e meio de lado, prolongando as sombras até o infinito da cidade. Olhou para o lado do centro. Não era a mesma coisa, a mesma cena, apresentava certa característica, só que mais escura. É pena, falou mentalmente enquanto atravessava a Augusta. Na calçada do Conjunto Nacional, viu o cartaz de cinema estampado no Center Três. Trazia em primeiro plano o ator Harrison Ford. Lembrou do último que assistira e se convenceu que Hollywood não sabia mais fazer filme dramático como antigamente. Hoje o que mandava eram as aventuras, tiroteio, mortes e computação gráfica. É uma pena, falou mais uma vez pensativo.

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