O metrô chegava à estação quando
ela levantou assim de repente, trombando com o rapaz a sua frente. Estava
atrasada. Assim que a porta abriu, saiu de supetão, arrastando o jovem que
precisou segurar a bolsa que lhe caia do ombro. Ela ainda ouviu o que ele
disse: “Apressada. Corre senão vai perder o último metrô.” Ela não deu pelota.
O rapaz na calma costumeira
encostou-se ao pilar, dobrou a perna direita, se apoiando na esquerda, e
esticou todo o corpo até que ficasse reto sentindo o ombro encostar-se ao
pilar. Despreocupado abriu novamente o livro e começou a ler enquanto esperava
o metrô. Olhou para a direita. Lá estava a mulher apressada à beira da
plataforma. Tomara que escorregue e caia na linha, pensou maldosamente.
Após uns Instantes o trem chegou.
Foi o último a entrar. Encostou-se na porta assim que ela fechou. Abriu o livro
e continuou a leitura.
Na estação Consolação calmamente
desceu. Passou pela roleta e virou a esquerda. No momento em que subia a
escada, dois jovens desciam conversando alegremente. Uma jovem e um rapaz, os
dois com piercing nas orelhas. O rapaz vinha falando alto, meio bronqueado com
alguma coisa.
“Tudo, mas tudo isso aí – e fez
um gesto abrangendo toda a avenida -, tudo isso é uma ignomínia. Isso mesmo,
uma ignomínia, como ninguém sabe o que é isso, estou cagando pra elas.”
IGNOMINIA: (do lat. Ignobilitate)
s.f. – grande desonra; opróbrio, infâmia.
O rapaz saindo da estação recebeu
no rosto a temperatura da avenida, sorriu ao ouvir o desabafo do revoltado jovem.
Por que será que achou que tudo
isso aqui – e lançou um olhar numa rotação de 180 graus pela avenida – é uma
ignomínia? O que terá acontecido com ele?
Não saberia dizer e, deu certa
razão ao que ele dissera, há em tudo certa ignomínia sim, mas não por culpa
dele ou por culpa sua. Culpa de quem?
Da autoridade que não via e, se
via talvez tirasse proveito, dessa bagunça, dessa sujeira que enchia a calçada
de lixo e camelôs arreganhando os dentes de fome aos pedestres?
Ou se essa ignomínia era pela
atitude das pessoas ridiculamente num viver, melhor dizendo, aceitando
situações que estão além de si mesma e se sujeitam apenas sobreviver pensando
ou sendo enganados que são felizes?
Ou seria o modo como ele, e
talvez até aquele rapaz, via a vida?
Pode ser o que não poderia deixar
é que essa ignomínia tomasse conta de si, levando-o a desprezar tudo e, o que é
pior, a vida.
Dobrando a Frei Caneca já não
pensava nisso, isto é, pensava em escrever algo sobre isso. O que? Uma crônica,
um conto ou um simples e corriqueiro bom dia?
Só foi ter noção do que
escreveria quando ligou o micro e seus dedos céleres correram por sobre as
teclas prestas.
E no meio da telinha branca
escreveu em itálico a palavra: IGNOMINIA.
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