sábado, 2 de novembro de 2024

Intransigência.

  

Ao abrir a geladeira para pegar uma cerveja, ouviu a voz esganiçada da mulher em seu ouvido:

- Na minha geladeira não quero nenhuma cerveja.

Isso fora há muitos anos, e ainda ouvia a voz dela toda vez em que abria a maldita geladeira. Na época, além de ficar puto pensou que entendia o procedimento dela. Estava guardando duas garrafas quando mentalmente ouviu a voz de galinha garnisé:

- Na minha geladeira não quero nenhuma cerveja.

- Tudo bem, chega, falou uma vez e pronto, não enche mais o saco -, jogando as duas garrafas contra o muro do quintal espatifando em mil pedaços e manchando o branco do muro com os respingos da cerveja.

Saiu de casa batendo o portão e foi beber no bar da esquina.

- Não quer que eu beba em casa vou beber na rua -, pensou raivoso.

Voltou para casa meio embriagado. Caiu na cama e dormiu como uma pedra, num sono profundo. Não deu nem pelota para os resmungos da mulher.

E se hoje não a acompanhava mais nas compras do mês, era por culpa dela.

Empurrava o carrinho quase cheio quando passavam pelas bebidas. Ele pegou uma caixa de refrigerante e uma de cerveja. Na mesma hora a mulher pegou a caixa de cerveja colocando de volta na gôndola repetindo a lengalenga:

- Na minha geladeira não quero nenhuma cerveja.

O pessoal que estava em volta olhou assustado para os dois, mais precisamente para ele, talvez para saber que atitude tomaria. Por instantes, gelado de raiva, sentindo o suor escorrer pelo rosto quente de ódio, não soube o que fazer, mas ao ver o sorriso irônico do senhor a sua frente que, sem pensar, deu um empurrão no carrinho fazendo com que batesse na perna da mulher. Saiu do supermercado prometendo a si mesmo que nunca mais entraria naquele estabelecimento.

Naquele dia, um sábado, só voltou para casa altas horas da manhã de domingo, quando o sol batia de leve no telhado da casa.

E agora, ao pegar uma cerveja que por algum motivo, Páscoa, Natal ou aniversário de não sei quem, ela comprava cerveja e ele relutava em beber, mas acabava sempre cedendo, principalmente quando a data de validade estava vencendo.

Pegou a lata de cerveja, ergueu como se estivesse brindando, dizendo:

- Vá à merda o seu não querer nenhuma cerveja na minha geladeira.

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