Ao abrir a geladeira para pegar
uma cerveja, ouviu a voz esganiçada da mulher em seu ouvido:
- Na minha geladeira não quero
nenhuma cerveja.
Isso fora há muitos anos, e ainda
ouvia a voz dela toda vez em que abria a maldita geladeira. Na época, além de
ficar puto pensou que entendia o procedimento dela. Estava guardando duas
garrafas quando mentalmente ouviu a voz de galinha garnisé:
- Na minha geladeira não quero
nenhuma cerveja.
- Tudo bem, chega, falou uma vez
e pronto, não enche mais o saco -, jogando as duas garrafas contra o muro do
quintal espatifando em mil pedaços e manchando o branco do muro com os
respingos da cerveja.
Saiu de casa batendo o portão e
foi beber no bar da esquina.
- Não quer que eu beba em casa
vou beber na rua -, pensou raivoso.
Voltou para casa meio embriagado.
Caiu na cama e dormiu como uma pedra, num sono profundo. Não deu nem pelota
para os resmungos da mulher.
E se hoje não a acompanhava mais
nas compras do mês, era por culpa dela.
Empurrava o carrinho quase cheio
quando passavam pelas bebidas. Ele pegou uma caixa de refrigerante e uma de
cerveja. Na mesma hora a mulher pegou a caixa de cerveja colocando de volta na
gôndola repetindo a lengalenga:
- Na minha geladeira não quero
nenhuma cerveja.
O pessoal que estava em volta olhou
assustado para os dois, mais precisamente para ele, talvez para saber que
atitude tomaria. Por instantes, gelado de raiva, sentindo o suor escorrer pelo
rosto quente de ódio, não soube o que fazer, mas ao ver o sorriso irônico do
senhor a sua frente que, sem pensar, deu um empurrão no carrinho fazendo com
que batesse na perna da mulher. Saiu do supermercado prometendo a si mesmo que
nunca mais entraria naquele estabelecimento.
Naquele dia, um sábado, só voltou
para casa altas horas da manhã de domingo, quando o sol batia de leve no
telhado da casa.
E agora, ao pegar uma cerveja que
por algum motivo, Páscoa, Natal ou aniversário de não sei quem, ela comprava
cerveja e ele relutava em beber, mas acabava sempre cedendo, principalmente
quando a data de validade estava vencendo.
Pegou a lata de cerveja, ergueu
como se estivesse brindando, dizendo:
- Vá à merda o seu não querer
nenhuma cerveja na minha geladeira.
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