quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Ah! rua Silvia...

  

Faziam dois meses de casado e eu já estava desempregado. Não fiquei desesperado. A única coisa que me azucrinava ou, achava que poderia me azucrinar, era a família da minha esposa achar que eu era mais um vagabundo. Talvez até minha esposa pensasse assim. Dois meses de casado e fui demitido.

 

Trabalhava na linha de montagem da Philco do Tatuapé. A empresa estava criando uma linha de montagem de televisores importados. Ela tinha arregimentado vários alunos que estudavam eletrônica no Colégio Lavoisier para um treinamento de mais de seis meses. As peças vinham do exterior para serem montados aqui e depois os televisores seriam exportados para os Estados Unidos. Portanto fiquei seis meses tendo instruções sobre eletrônica básica e de como era o funcionamento de um televisor, válvulas – naquela época ainda havia televisores com duas válvulas, hoje a única válvula é o tubo -, as peças, as placas, os transistores, a trilha de solda, enfim tudo o que seria necessário saber.

 

Mas por uma viravolta política, tal operação foi proibida, parece que limitaram as exportações e importações, não sei. E, como também as demissões estavam sendo rigorosamente controladas por causa da crise do desemprego, mais de quinhentos funcionários ficaram sem fazer nada, por mais de meses e meses perambulamos pela fábrica matando o tempo até que conseguissem uma colocação para todos.

 

Fui designado, primeiramente para a linha de montagem dos televisores pequenos, depois me jogaram na linha de montagem dos rádios. Era um serviço estressante, onde eu tinha que fazer uma porcentagem por dia de serviço não podendo ser essa porcentagem abaixo de oito, vamos dizer. E como não estava me adaptando, um dia o encarregado me mandou fazer um serviço e como não o obedeci, fui demitido.

 

Não esquentei. Tinha experiência em operar máquinas NCR, portanto passei a consultar as colunas de empregos dos jornais. Já estava quase um mês parado, quando numa quarta-feira, subindo a São João, desanimado, visitado umas não sei quantas agências de empregos, passando por uma banca, resolvi comprar o Estadão. Entrei na Praça da República, que naquela época era bem mais decente do que hoje e bem menos perigosa, sentei num banco e passei a ler o jornal começando, é lógico, pela coluna de empregos. Havia muitos, quando deparei com um anúncio grande onde se pedia um operador de NCR com experiência, mas não trazia o nome da firma, apenas o endereço. Na mesma hora, rasguei o anúncio, larguei o jornal no banco. Procurei saber onde ficava a Rua Silvia e me dirigi para lá.

 

A rua começa na Pamplona, travessa da Paulista e termina, se não me engano, numa praça que no momento não lembro o nome. Desci a rua até o número indicado no anúncio e, qual não foi a minha surpresa ao ver o imponente prédio branco com o nome da firma em letras grandes: LIQUIGAS.

 

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